Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

El Sueño que Pasó

Sentada à beira da cama, Marina termina de amarrar os coturnos. Estonteada ainda pelo sono, a jovem rumina o sonho vago que não consegue rememorar com detalhes. Cada pedaço do seu corpo carrega reminiscências dos dois dias,especialmente a boca (travo do álcool consumido nos dois dias), o estômago (“borboletas” de uma fome de comida saudável), a cabeça (vazio da ressaca), os ouvidos (zumbido do som alto) e as pernas, braços e pescoço (cansaço de uma dança esquizóide que foi improvisada entre uma dose e outra).

O mostrador do relógio informa solenemente: “Marina,estás atrasada.”, “Mas sempre dá tempo pra tomar um café forte.” Replica, mal-humorada, a jovem de vestido roxo.

Distraidamente, Marina arruma os cabelos e maquia os olhos castanhos. Em um estado semi-onírico, a jovem veste um casaco, três segundos depois o recusa e não consegue livrar-se das tênues cordas que a prendem ao sonho confuso do qual não vê jeito de lembrar-se.

Sai do quarto com uma bolsa de veludo preta onde jaziam os restos financeiros e estéticos da sexta, do sábado e do domingo, além dos documentos, do telefone celular e de um livro de bolso.

Na cozinha bebe um copo d’água, no banheiro escova os dentes.

Tranca a porta atrás de si e esquece a chave. Entra no elevador e um fio de seu vestido fica preso. Sem dar por isso, aperta o botão do térreo e se põe a ler distraidamente um poema escrito na parede. Fica tentando compreender duas coisas ao mesmo tempo e tem um sobressalto quando o elevador chega ao “T”.

Anda entre dois sonhos, passa pelo porteiro eletrônico ao qual chama de James para lembrar-se de que, um dia, uma pessoa de verdade era paga para abrir a porta.

“Bom dia, James.” diz, indiferente, apertando-o.

“Pííí” foi sua resposta ao abrir-lhe aporta.

Marina, sem perceber, tinha seu vestido desfiado (o comprimento, originalmente na altura das canelas, já estava sobre os joelhos). Sem lembrar, nem esquecer, pensa obsessivamente no sonho da noite anterior.

O céu está tão azul quanto nos livros do Erico Veríssimo, as árvores ainda conservam, dignamente, as palavras dos olhos bovinos de Mario Quintana...e as pessoas, tão sérias e ensimesmadas como mandam as regras. Marina, no meio delas, parecia uma formiguinha vista do apartamento de Florbela.

Ao parar no sinal, o bonito vestido roxo que cobre o corpo de Marina está no meio das coxas. Uma senhora respeitável percebeu, enquanto atravessavam a rua, que o vestido diminuía devido ao fio puxado, o qual parecia uma espécie de trilha para não se perder. A respeitável senhora (Antônia de Assumpção é seu nome de batismo) acha que a jovem o faz de propósito, classifica-a de meretriz e segue seu caminho, lançando a Marina um olhar cheio de raiva e reproche.

Como ninguém parecia perceber a situação na qual a jovem de roxo, inconscientemente, havia se metido, a menina do vestido encolhedor segue seu caminho, parecendo flutuar. Ao dobrar a esquina da Quinze com a Sete (Vinte e Dois), toda a fauna e a flora do Café mais tradicional da cidade delirava ao ver que a cor das calcinhas da menina de coturnos era cor-de-burro-quando-foge! Certamente os venerandos, responsáveis, conservadores, centenários e retrógrados pares de olhos freqüentadores do Café somente reparavam na forma, tentavam adivinhar a textura e ver se tinha ou não lacinho a calcinha da menina, jamais reparariam no seu conteúdo, ou desejariam que a jovem tivesse esquecido de pôr a roupa íntima naquela fatídica manhã, longe deles!

Com os olhos castanhos ainda olhando para dentro de si mesma, Marina segue caminhando inocentemente.

“Só consigo lembrar que sentia...” eram seus balbuciantes pensamentos, tentando infrutiferamente lembrar do sonho maluco da noite anterior.

Chegando à rua nomeada em homenagem a um famoso padre jesuíta, o qual ajudou a matar a cultura de seu país e trouxe aos nativos ignorantes as doenças e as sujeiras do mundo civilizado, já se via sua barriga (talvez não seja muito agradável descrevê-la. Alguns a achariam “ajeitadinha”, mas os rígidos padrões de beleza a reprovariam por não ter passado por uma academia ou um bisturi...).

Atravessa a rua correndo, sem entender o olhar da menina que passa por ela. Continua pensando no sonho, quase enlouquecendo por não conseguir sequer saber do que tratava!

O olhar da menina, jovenzinha rebelde sem causa de doze anos, foi de inveja e admiração. O sutiã preto, de renda e arame que sustentava os seios relativamente bonitos de Marina (e até os seios relativamente bonitos da jovem) eram o sonho de consumo da tal menininha pseudo punk/gótica/grunge. E andar na rua com tudo isso à mostra, certamente era o poder encarnado em forma de mulher. “Imagina o que a minha mãe ia dizer se me visse assim!” sorri a pré-adolescente, imaginando...

Marina, com a cabeça latejando (ressaca!), pensa vagamente no dia que teria pela frente – sem esquecer de tentar lembrar do sonho que esqueceu.

Ao chegar a mais uma esquina, o fio de lã está do tamanho original, desenrolado, antes de ter sido tecido de forma a ser o bonito vestido roxo de Marina. Cai no chão o fio, toca o celular. Ela atende, olhando-se em uma vitrine. Ao ver-se assim, apenas usando um sutiã de renda preto, uma calcinha cor-de-burro-quando-foge de algodão, coturnos pretos, segurando uma pequena bolsa de veludo na mão esquerda e com o celular ao ouvido direito, sente-se invadida por uma felicidade indizível, um alívio infinito. Sorri e quase vai às lágrimas. “Lembrei! Lembrei! Eu sonhei que saía na rua com esse vestido, o fio prendia no elevador e eu acabava pelada na esquina da Félix com a Sete! Lembrei!” grita Marina, exultante.

Em uma fração de segundo percebe o ridículo da situação e cai, sem sentidos, ali mesmo, na esquina da Félix com a Sete, ante o olhar perplexo da multidão.

Ela ainda parece uma formiguinha vista do terraço do prédio no qual vive Florbela. Mas albina.

2 Moedas no Cofrinho:

  1. Moisés Corrêa disse...
     

    PARABENS!!!!!!!!! OTIMO!! MUITO MUITO MUITO MUITO BOM!!!

    Sei que pode nao ser brilhante, pq brilhantismo vem de mentes chatas, MAS EH ESTONTEANTEMENTE BRILHANTE!

    OBRIGADO POR ILUMINAR O MEU DIA COM ESTE CONTO!

  2. Cris Andersen disse...
     

    aiuehaiuehaiuehaeuiaeuiaeu
    É tudo culpa da cachaça!

    ^^

    Mas realmente, muito bom o conto
    ^^

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