Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

A Aliança de Noivado

No início de dezembro Ester decidiu que seria pedida em casamento... e em breve,pois acreditava que as festas de fim de ano trariam ótimos agouros a um compromisso mais sério. Além disso, seria a época perfeita para uma pequena celebração,só para as famílias e aqueles amigos mais próximos...todos já estariam na cidade de qualquer forma para as tradicionais celebrações de Natal e Ano Novo. O casamento só aconteceria anos a frente, óbvio,já que os dois estavam no primeiro ano da universidade e,além de todas as dificuldades enfrentas de ordinário por um casal, ainda viviam em cidades diferentes. Mas o noivado aconteceria, sim, claro! Ela o amava com todas as forças,pensava nele o tempo todo e sofria com atrozes saudades durante a maior parte do ano. E ele a amava também,e muito,do seu jeito menos explosivo,mais contido e muito profundo...nem todos são tempestuosos como Ester! E, se Vicente fosse assim, o relacionamento estaria condenado aos sete meses de limite entre dois iguais.
Ela o esperou voltar pra casa com mil idéias e planos, estratégias amorosas para convencer Vicente a ter a brihante idéia de oferecer a ela, sua amada namorada de anos e distâncias, uma aliança de noivado. Passearia com ele na frente de joalherias, apontaria a vários anéis e diria preferir aquelas alianças de ouro, tão lindas e que, olha só!, ficam tão bonitas na sua mão! Pesquisaria, irritante e insistentemente, sobre o assunto na Internet... A história das cerimônias de noivado, em que mão usar as alianças, que tipo de material escolher, modelos, preços e parcelamento, gravação dos nomes e data, tamanho dos dedos, significados e significantes. Faria planos em voz alta, diria todas as suas fantasias de pombinha enamorada, perderia o medo de ser mal compreendida...afinal, ele a amava ou o quê? Então, nada mais natural do que um pedido, mil beijos, mil planos... Isso adoçaria a distância e daria a todos a medida certa do relacionamento. Afinal, eles não eram um casalzinho qualquer, que se ama pra sempre durante umas semanas e, logo a seguir, termina tudo por causa de alguém novo, ou porque quer voltar a ficar com todas. Apesar de todas as previsões pessimistas dos amigos, Ester e Vicente já haviam superado dois anos morando longe. Isso já era maior do que a soma de todos os relacionamentos dos seus grupos de amizade. Apesar de todos os encorajamentos a terminar logo, todos os conselhos a parar de sofrer e de se iludir, todos os prognósticos negativos de quem deveria consolar, os dois permaneciam juntos, sempre, cada vez mais apaixonados e felizes. Enquanto as inseguranças enfraqueciam, a certeza de continuarem juntos fortalecia, mesmo que fosse muito difícil e triste o tempo passado em tal cruel separação geográfica... Por que ele não pediria?
Ele chegou... Depois do enlevo dos primeiros dias, de muitos carinhos e nenhuma preocupação outra que beijá-lo e abrir-lhe deliciosamente as pernas, Ester começou com suas sutilezas. Enquanto ele passava devotava atenção e carinho aos saudosos pais na sala, ela via alianças em lojas virtuais no quarto. Quando ele entrava no quarto, ela mostrava suas preferidas e perguntava o que ele achava. Quando andavam pela cidade, ela mostrava alianças o tempo todo. Assistindo a filmes? Olha só que legal a aliança dela! Entrando numa banca de revistas? Como estão lindos os modelos de aliança dessa revista de noivas! Iam a uma livraria? Nossa, quantos livros sobre casamento!
Quando viam amigos, ela sempre comentava, em meia-voz, sobre a efemeridade de seus namoros. Agigantava seu relacionamento e tentava de todas as formas fazer com que ele percebesse, seria tão difícil?, que seu relacionamento era muito mais do que um namoro de adolescentes! Queria que ele visse como eram imensos seus sentimentos, maiores que todos! E que o noivado só corroboraria o já existente entre eles... As alianças seriam somente o ícone, o símbolo... Afinal, vivemos ou não em um mundo primordialmente simbolizado? Não, Ester não se precipitava! Ester respirava Vicente, Ester vivia Vicente o tempo inteiro! Ester o amava mais do que amava a si mesma. Decidira colocá-lo em primeiro lugar em relação a tudo e nunca pedira nada em troca. Durante os malditos dias de indecisão de Vicente, logo antes de deixar a cidade, quando ele não sabia se queria ou não romper o relacionamento, Ester se manteve firme. Chorosa, mas firme. Mesmo quando ele admitia amá-la menos do que ela o amava, Ester procurou compreender e não se desesperou. Ela sempre soube. Sempre sempre sempre! Eles ficariam juntos, como não? Era pra ser dessa forma e não de outra. Ele demorou quase dois anos pra perceber o que estava pintado em todos os muros, o que era cantado em todas as canções: Ester era sua mulher! Ester, só Ester! Ela viu logo,mas tinha medo de dizer. Esperava por ele, temeu que ele nunca enxergasse o óbvio... Mas ele viu. Ninguém sabe como. Mas como não ver? Ela merecia ser uma noiva, não a namoradinha. Queria que todos soubessem ser ela a futura esposa. Sim, dá certo. Tão certo que se casariam. Tão certo...
Ela sentia que ele tentaria enganá-la, desviá-la... Fazer com que ela se desiludisse, não esperasse mais pela proposta. Afinal, ele sabia o tamanho de seu anular direito... Queria crer que ele tentaria surpreendê-la. E isso seria tão adorável! Ester, enlanguescida, o questionava sobre seu presente de Natal. Dava mil sugestões, indiretas, diretas, muxoxos e pequenas armadilhas apaixonadas. Fazia caras mimosas, sorria de maneira adorável, choramingava e fazia beicinho. Fingia de indiferente, dizia querer ganhar o que quer que ele desse. Dissimulava. Olhares oblíquos. Não tocava no assunto. Tudo de verdade. Emoções contraditórias eram perfeitamente normais em uma mulher-menina-mantícora. Mas Ester acreditava no amor de Vicente e nessa prova suprema, mística, mítica, romântica, o melhor presente do mundo é uma vida inteira com ele! Ele havia de pedi-la, sim, claro!
Mas Vicente desconversava, olhava pra outro lado, se entediava. Saía, sorria, andava. Tentava evitar o tópico onipresente. Parecia achar precipitado. Dizia-lhe que um dia ela teria uma aliança de ouro amarelo. Jurava e repisava todas as promessas de vida e amor infinitos. Prometia-lhe fidelidade, sim, lealdade, sim, uma casa bonita com filhos eventuais e uma cadela labrador. Ele a deixaria ter uma gata, uma cabra e uma macieira. Também todos os livros. Cafeteira. Decoração. Uma vida saudável e muito feliz. Não é isso o que realmente importa?
Diante de todas essas demonstrações de amor, Ester se sentia ridícula por querer uma aliança e um título idiota, mas logo raciocinava... Se ele a ama tanto assim e realmente quer toda essa vida de cerquinha branca, então faz sentido que ele a peça em casamento! É maduro e razoável... é o que ela mais quero no mundo e o que vai fazê-la mais feliz na história do universo! Depois de minutos de desconfiança, rapidamente Ester recobrava o ânimo e a esperança. Sabia de seu amor. Ele a pediria no Natal!
Muito confiante, ela insinuou que queria flores – ele nunca lhe dera flores! – e bombons – um pedido tradicional requer também chocolates – junto ao pedido. Quase segura de si, ela quase disse qual a aliança perfeita. Só pra ter certeza, ela fez com que ele se lembrasse do tamanho do seu dedo – É o número doze, ou o tamanho do teu mindinho!
Dias de doce enlevo embalaram os dois. Apaixonados como nunca, planejavam o futuro, passeavam, ficavam a re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-redescobrir-se os corpos, vultos insinuados entre os lençóis e as águas da piscina, gozos fervorosos e muitas porras jogadas fora dentro dos recipientes vulcanizados dentro das embalagens, beijinhos e abraços, pequenas declarações de amor.
Então chegou o Natal. Presentes bonitos e queridos abraços, muitas calorias ingeridas em fartas mesas. Celebrações. Feriado.
Ester estava indócil.
Vicente estava satisfeito. Feliz consigo mesmo, ela iria adorar o presente! Resolveu entregar-lhe antes da ceia... Então agora. Chegou-se a ela, o embrulho era enorme!, ela riu-se contrafeita, mas por que tanto?, ele beijou-lhe a fronte, mas por que tremes?, ela pegou o embrulho, é pra mim?, ele fez uma careta, pra quem mais seria?, ela olhou o papel verde, é pra abrir agora?, ele deu de ombros, só se tu quiseres... , ela olhou ao redor, então abro, ele beijou-lhe os lábios, Feliz Natal!, ela sorriu, Feliz Natal.
Suas mãozinhas brancas mergulharam no embrulho verde ouro. Não sabia mais o que era embrulho e o que era mão. Encheu o papel de vida e a vida de celulose. Como não conseguisse desprender a fita adesiva, rasgou. Seus olhos, ávidos, encheram-se de água. O mundo dançou, oscilou. Um universo submarino. Peixes com feições humanas no meio do turbilhão. Tudo era verde. Nada era vivo. O papel se rasgou e revelou papel manteiga. Um cheiro conhecido entrou em seu cérebro, Ester lembrou da loja de seu avô. Atropelando-se, jogou o papel manteiga pra longe e viu... Uma grande bolsa de couro marrom cheia de tachinhas dourovelhadas. Adorara essa bolsa! Era tudo do que pudera falar durante meses. Ela agora só poderia ser um pretexto, um outro embrulho, um disfarce pro presente de verdade. Sem entender direito, sem fazer muito sentido, Ester abriu a bolsa. Encontrou um saco plástico cheio de ar. Regurgitando-se, estourou o saco e enfiou a alma dentro da linda bolsa, procurava pelo amor dentro de uma caixinha de veludo. Abriu e fechou os lábios, vasculhou as memórias, Se eu fosse uma aliança de noivado brincando de esconder dentro de uma bolsa de couro das lojas Marisas aonde eu estaria agora? Ah, Deus, qual a cor do veludo? Cadê, meu amor, cadê? Bolsa de cabeça pra baixo, leve insanidade na risada dos bolsos abertos... Mas tu não me amaaaaaas?????
Ester não encontrou uma caixinha de veludo dentro da bolsa. No auge do desespero, não percebeu que algo caíra. Ela desmaiou, febril. Engasgou uns solfejos e parou de pensar, logo parou de existir. Se apagou a chama tão logo o ar cessou.
E o que tinha dentro da bolsa?
Uma trufa de chocolate com recheio de café.
E dentro da trufa?
Uma aliança de ouro amarelo com um filete de ouro branco, dezoito quilates, com nome gravado e data marcada.

1 Moedas no Cofrinho:

  1. Moisés Corrêa disse...
     

    "Passearia com ele na frente de joalherias, apontaria a vários anéis e diria preferir aquelas alianças de ouro, tão lindas e que, olha só!, ficam tão bonitas na sua mão! Pesquisaria, irritante e insistentemente, sobre o assunto na Internet... A história das cerimônias de noivado, em que mão usar as alianças, que tipo de material escolher, modelos, preços e parcelamento, gravação dos nomes e data, tamanho dos dedos, significados e significantes. Faria planos em voz alta, diria todas as suas fantasias de pombinha enamorada, perderia o medo de ser mal compreendida"

    Eu adicionaria neste momento...

    "Escreveria contos e publicaria na internet"

    E por fim

    afinal, ele a amava ou o que?

    Amo-te... E espero q no final o conto seja somente um conto

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