Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

Letícia

Passeando entre prédios antigos e árvores verdes, uma menina de roxo parecia adormecida. Suas botas escuras pisavam de leve o chão, apenas o suficiente para a gravidade cumprir suas leis e não deixar a garota flutuar.
Seus olhos, castanhos e sonolentamente brilhantes, não passavam de olhos. A menina os usava como todos usam. Eles lhe mostravam o mundo. Com eles, a jovem de longos cabelos negros enxergava o sol, o céu, os prédios, as árvores, as coisas. Mas o que ela gostava, mesmo, era de virá-los para as pessoas. Todas as pessoas: as bonitas e as feias, as brilhantes e as patéticas. E ela olhava-as com fome, fome de detalhes, expressões, trejeitos, sorrisos, passos, conversas. Vasculhava tudo o que podia ver e inventava o resto.
A jovem de roxo, então, chegou ao seu destino: um café com grandes janelas. Inefável, sentou-se e quis um chá de ervas. Precisava ocupar suas mãos. Mãos bonitas, unhas pintadas, mãos como quaisquer outras.
Na pequena eternidade entre o pedido e a entrega, a jovem usou seus olhos e sua mente. Através da janelona, via os passantes. Cada uma daquelas pessoas era um universo inteiro! Enxergava um homem velho e barrigudo, de olhos muito verdes e ruguinhas nos cantos da boca. Ela percebeu que ele caminhava com passos curtos e rápidos e olhava para baixo. Sua expressão - maquinou a menina, parecia triste e desesperançosa. Teria aquele senhor sido um jovem belo e galanteador? Sim, ela decidiu, ele fora um rapaz bonito e romântico, apaixonara-se um milhão de vezes e tivera as mulheres aos seus pés. Que juventude! Quantos risos, quantos beijos! Entretanto, pobre homem, Ele não soubera envelhecer. Quando os anos chegaram, as mulheres rarearam e as gorduras cresceram, o charmoso galã se tornou um velho amargo, ressentido e carrancudo... O senhor, ao chegar à esquina, esbarrou em um grupo de adolescentes coradas. Ele esbravejou e saiu da visão da menina do Café. Agora, os olhos dela observavam o grupo de adolescentes. Todas muito iguais, cabelos louros, barrigas de fora, calças de ginástica. Exceto uma, a mais loura. Enquanto as outras riam e falavam, ela também ria. Mas seu olhar parecia tão distante. Quando todas assumiam expressões acéfalas no silêncio, ela parecia pensar. Ponderaria sobre sua vida? Sim, ela era diferente das outras. Mas por quê? Sempre quisera ser igual a todas, ter amigos e um namorado bonito... Enquanto as meninas devoravam, se, piedade, um pacote de bolachas recheadas de chocolate, a menina louríssima as escondia, furtiva, na bolsa. Não comera nenhuma. Sua magreza gritava, ossos dos quadris à mostra e braços finíssimos. Ela não tivera escolha, percebeu a jovem de cabelos negros, precisara parar de comer para se incluir. Para que pudesse se sentir querida e feliz. As garotas iguais entraram em uma loja e foram observadas por um rapaz de cabelos longos. Ele, ladrão da atenção da menina de roxo, tinha o rosto bonito e descontraído. Seus olhos pretos e seus lábios finos sorriam enquanto seus braços carregavam um buquê de flores muito roxas. Esse, sim, parecia feliz. Apaixonara-se pela primeira vez e era correspondido. Sorria para as antecipações do encontro com a namorada e para as lembranças das conversas de ontem. As flores gritantemente violetas a agradariam. Ela era a melhor coisa que acontecera na sua vida, e ele quase duvidava de tanta sorte. Correu ao atravessar a rua e entrou no Café onde a garota de olhos sonolentos ainda esperava pelo chá. Ela, embalada por seus delírios, tentou cumprimentar o rapaz do buquê de flores, mas ele a ignorou.
Os olhos dela se viraram para a mesa, para o teto e para o balcão. Subitamente, todos os detalhes que sorvera daquelas pessoas pareceram inúteis. Tudo pareceu mortalmente vão e sem significado. Aquelas pessoas, cujas vidas se cruzaram por breves instantes, eram todas tão invulneravelmente solitárias! Presas em si mesmas, pensando sempre nas mesmas coisas, lidando com as suas rotinas. Todos sozinhos, toda humanidade consistia nesses fragmentos! Vivendo vidas inteiras, plenas de significados, vidas não notadas. Em silêncio. Ilhas, muitas ilhas! A jovem sentia frio... Como unir as pessoas, se todas são universos? Nada poderiam ter em comum, se todos são irremediavelmente únicos!
E ela não entendia o que fazer com tantos detalhes que olhava tantas particularidades... Pra que servia isso? As pessoas solitárias e cheias de cores, indescritíveis cores e vidas. Ela precisava de um modo, de um jeito de mostrar à esses universos toda a beleza que se encerra em cada relance de seus dias.
Mas como poderia ela, uma simples menina de roxo, fazer isso?
Seus devaneios foram interrompidos pela chegada do pedido. Uma mulher de meia-idade, uniforme muito rosa, antipaticamente dispôs a xícara de cerâmica com a aromática bebida, um açucareiro de metal e uma colher na mesa da jovem de cabelos negros. Largou a conta e deu as costas à moça, resmungando qualquer impropério.
Novamente perdida em considerações, a jovem deixou suas bonitas mãos alçarem a xícara de chá. Acompanhando o tumulto da mente, os dedos da menina tremiam e oscilavam.
Ela respirou profundamente, seus olhos estavam pastando em uma árvore. O mundo todo se tornou etéreo por um instante, a gravidade pareceu uma invenção maluca quando a garota sentiu sua xícara flutuar. Abismada, ela olhou para suas mãos. A xícara, que habitou ali por alguns minutos trêmulos, caía. Lentamente, durante uma imensidão absurda de tempo, o chá deixou o recipiente delicado e foi se espalhar no chão, molhar as botas da menina. Ela viu, quadro a quadro, a xícara dançar, virar, dar cambalhotas no ar, até o trágico momento da desintegração, dos estilhaços de porcelanas por todos os lados quando a gravidade ela alcançou.
O barulho de porcelana se quebrando demorou a ser assimilado pela menina, enquanto ela jogava as mãos aos cacos. Quis reuni-los, já que não podia colas as pessoas...
Quando ela olhou para a mão direita e notou o corte.
E o sangue, muito vermelho, aflorando na palma da mão.
Então, aconteceu. Seus olhos perscrutadores viram suas mãos cheias de cor. Sua mente lembrou de todas aquelas pessoas, dos olhos muito verdes do senhor barrigudo e dos cabelos muito amarelos da moça anorexia, das flores muito roxas do jovem cabeludo, do uniforme muito rosa da mulher antipática. Seus detalhes, verdadeiros ou imaginados, não passariam despercebidos. Ela os enxergaria, os inventaria, os ouviria. Ela tentaria decifra-los e recodifica-los em palavras... E as palavras, apesar de pobres em vista das cores, não seriam sua única ferramenta. Ela os desenharia, encheria de cores inventadas e inusitadas suas reminiscências. Seus olhos os devorariam, sua mente os recriaria e suas mãos os eternizariam com os detalhes de breves momentos, fotografias rápidas de vidas inteiras.
Afinal, podia ver claramente agora: ela sempre fora uma escritora. Uma artista. Uma aspirante a construtora de pontes entre arquipélagos.

2 Moedas no Cofrinho:

  1. Moisés Corrêa disse...
     

    Ela adorou!!!^______________^

    Te amo

  2. Cris Andersen disse...
     

    Shi.. de novo...eu realmente queria muito entender.

    O.o

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