Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

Nietzschiana

Ela saiu do trabalho para encontrar seu marido e irem almoçar juntos.
Tudo estava mais ou menos: O dia,nem quente,nem frio; nem seco,nem úmido;
nem claro,nem escuro. Tivera uma manhã mais ou menos. Seu humor estava mais
ou menos. Querem saber como ia sua vida? Mais ou menos.
Era um dia extremamente comum.
Ao pisar na rua,deparou-se com uma dúvida: Ir de carro ou a pé?
Resolveu andar... Tinha certeza de que não choveria, pois a chuva seria
algo demasiado grandioso para um dia tão ordinário.
Sem querer reparou no ar ao seu redor, cheiro de rosas murchas.
Sem querer,lembrou que hoje era o meio do meio do meio do ano... Meio-
dia,quinze de junho... Um estranho pensamento perpassou sua mente: Seria esse
o meio do meio do meio da sua vida? Será que,dali em diante,viveria
exatamente o mesmo tempo que vivera até aquele minuto?
Uma sensação vertiginosa apossou-se dela, como poderia o meio da sua vida ser
marcado por um dia tão insípido? Quando era mais jovem, lera Nietzsche.
Embora nunca tivesse gostado tanto daquele bigodudo recalcado, sua obsessão
pelo Grande Meio-Dia tinha ficado marcada no inconsciente. Em algum
lugarzinho escondido ela havia decidido: O meio dia de sua vida seria
lindo, se ao menos ela pudesse saber quando...
Invadida por um impalpável e urgente senso de dever,ela se apressou:
Precisava avisar ao marido que hoje seria o dia mais importante de sua vida
e que, se ele resolvesse reclamar, ela o deixaria falar às paredes e
celebraria sozinha.
Correria até o restaurante se preciso fosse,não podia perder nem um
minuto. Enquanto caminhava rápido, imaginava o dia: Podia pedir a tarde de
folga, alegaria uma indisposição qualquer. Se o marido estivesse bem
humorado, o convenceria a adiar o resto de afazeres para amanhã. Iriam juntos
pra casa, jogariam strip-pôquer, fariam certas coisas do jeito que faziam
quando eram adolescentes. Depois cozinhariam qualquer coisa,ela tocaria
piano pra ele,ele olharia para ela. Quando as cinco da tarde
viessem, buscariam o filho na escola. Iriam todos juntos andar de
bicicleta, depois alugariam um filme de Monty Python e pediriam pizza.
Comeriam a pizza direto da caixa assistindo ao filme. Pegariam um livro
qualquer e fariam vozes engraçadas pra divertir o filho,ficariam com ele até
que dormisse. Depois deitar-se-iam no jardim e beberiam vinho, falando sobre
coisas idiotas até ficar frio. Então ela o levaria pro quarto, ainda uma
vez, declararia seu amor. Ainda uma vez,o sexo seria inacreditavelmente
etéreo. De novo, tocaria violoncelo nua até que ele dormisse.
Depois, aninharia sua cabeça no seu peito e agradeceria por ter ainda outra
metade de vida.
Enquanto caminhava,cada vez mais rápido,ela se alegrava. O dia parecia
menos medíocre, as pessoas eram-lhe menos antipáticas. Estava incrivelmente
leve e queria muito beijar seu homem.
Começou a correr, em duas quadras chegaria ao restaurante. Já podia
divisar o carro cinzento de seu marido. O dia seria lindo sim! Já o era!
Correu mais rápido, no fim da próxima quadra já enxergaria o esposo.
Lá estava ele,sem entender por que sua mulher corria tanto.
Lá estava ela,atravessando a rua.
Sentia-se prenhe de vida,invulnerável.
Em um instante absurdo,ela vacilou. E se não fosse, afinal,o meio-dia de
sua vida? Nesse fragmento impreciso, seu tornozelo esquerdo se decidiu a
ficar no lugar. Seu corpo queria encontrar o corpo do homem perplexo que a
encarava com um meio sorriso. O tornozelo ficou,o corpo foi.
Ela torceu o pé.
O sinal abriu.
Ela caiu.
Um carro passou.
Ele gritou.
Seu coração parou de bater.
Seu corpo abortou a vida incipiente.

2 Moedas no Cofrinho:

  1. Cris Andersen disse...
     

    e mais um personagem morre nos contos da Iarima.

    ^^

  2. Moisés Corrêa disse...
     

    Legal! ^^ Tri massa!! Eh tao bom quanto o do fio de lã! ;)

    Tudo bem que agora a gente fica com peninha da mulher... Mas... Quem mandou ler Nietzsche

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