Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

Insomnie

Em uma manhã cinzenta, Grete acordou oprimida pelo peso dos cobertores sobre seu franzino corpo. Olhou pro lado, já devia ser tarde... Aquela sensação peculiar que tinha na cabeça, como se tivesse ficado leve, quando acordava atrasada... Mas não pode mexer o pescoço. Pensou em levar a mão até o rosto para afastar a franja dos olhos, mas não pôde lutar contra o peso do seu corpo. Mas por que tantas cobertas sobre ela? Não estava frio... Aliás, Grete sentia muito calor, suava até. Precisava descobrir o corpo, respirar. Por que não conseguia se mexer?

Ouviu um soluço abafado, por que sua mãe chorava? Tentou abrir a boca e articular palavras, mas nada parecia acontecer. Grete, assustada, tentou gritar. Seria uma daquelas situações em que não estava adormecida nem acordada, quando parecia absolutamente imóvel, entretanto semi-consciente, e simplesmente mexer um dedo lhe traria de volta ao mundo real? Concentrou todas as suas forças em mexer o dedo anelar direito. Podia sentir a leve pressão da aliança de noivado ao tentar mover o fino dedo de pianista, mas nada acontecia. Impaciência começou a aflorar na menina, mais soluços abafados...

O que estava acontecendo? Ela não conseguia mexer o dedo, não conseguia sequer suspirar... Essas experiências semi-oníricas nunca duravam tanto tempo, disso ela sabia. Desde menina Grete ficava presa entre o sonho e a vida, às vezes metaforicamente, às vezes não. No início, a menina, encantada pelo sobrenatural, se divertia com esses breves momentos incorpóreos. Conforme os anos passavam, a já não tão encantada jovem passou a temer essas situações. Ouvia gritos, tinha medo de morrer.

Grete concentrou-se, dessa vez iria mexer o dedo. Não conseguia enxergar nada, nem entrever as coisas. Continuava a escutar o choro da mãe, mas por que chorava? Novamente, o dedo não se moveu. Agora, Grete sentia a pressão da aliança crescer.

As cobertas pareciam mais pesadas, tão pesadas que a jovem não conseguia mais respirar direito. Sentia-se ofegante, exausta... Mas como? Dormira bem, como nunca dormira... Nenhum sonho a incomodou dessa vez, foi um simples vazio. Só assim ela podia, de fato, descansar.

Entretanto, como Grete já percebera, ela já não descansava mais. Longe disso, a moça estava banhada em suor e mal respirava... Tamanho era o esforço para mexer o dedo anelar direito. E o choro crescia, por que sua mãe gritava tanto?

Será que ela bebera na noite anterior? Será que essa seria uma daquelas horríveis manhãs de ressaca? Realmente, sempre que Grete exagerava, tinha dificuldades para acordar na manhã seguinte... E essa hipótese explicaria a ânsia de vômito que crescia nas entranhas da jovem ruiva.

Mas não explicava o pranto da mãe.

Depois de, ofegantemente, chegar a essa hipótese, Grete parou de respirar por alguns instantes. Durante esse lapso, o cérebro pouco oxigenado se iluminou. Em seguida, Grete começou a tremer.

Sua mãe gritou.

Uma vida inteira mal-dormida, uma vida inteira de olhos abertos. Soluços secos, olhos grandes, garganta áspera. Uma vida de choro contido em travesseiros, brigas explosivas e desamor. Mas ela amou, sim, e como! Mil beijos, mil abraços, mil sexos. E o príncipe encantado abriu a mão para lhe entregar a aliança de noivado perfeita! Data marcada, convites em papel cor de laranja. Ainda assim, lágrimas mudas no travesseiro depois do dia de amor e fanfarras... Mal-dormida, olhos abertos, garganta áspera. Brigas com o noivo querido, choro alto de manhã, nada de sono à noite. Pensamentos afloraram, hipóteses se desenharam. Seu amor a apoiou sempre, levando-a a médicos caros e terapias bizarras. Ele a apoiou, como ele a amou. Mas, à noite, sonhos acordados no pesadelo do não-dormir, ouvindo-o ressonar e roncar e sonhar com ela ao seu lado, ela estava enlouquecendo. Temia os remédios, dependências. Tomá-los e dormir e pará-los e viver insone depois. Pensou no futuro, marido, filhos, cachorro. E tudo, tudo seria pela metade. Porque nunca poderia adormecer. Péssima esposa, péssima mãe, péssima dona. Ela já era péssima noiva, péssima filha. Quis dormir, dormir de uma vez por todas, ressonar e sonhar. Sonharia com um futuro ao lado dele, beijando-o, abraçando-o, deixando-o dentro de si para sempre. Amor, amor. Ela não poderia destruir esse amor. Tudo se perderia se ela não pudesse dormir. Doutor caro e egocêntrico, eu tenho problemas com minha família e não consigo mais dormir. Por favor, me dá remédios, amanhã é o meu casamento e eu não quero entrar na igreja com olheiras. Farmácia, receita, dinheiro, liberdade. Finalmente, dormir e dormir! A menina ruiva beijou o noivo e foi passar a noite na casa da mãe. Seu pequeno quarto rosa de criança, colcha de retalhos da tia-avó, travesseiro de penas de ganso. Jantou com a mãe, gritinhos e risos. Subiu com uma xícara de chá de capim-limão e um olhar carinhoso de sua mãe. Provou o vestido de noiva e chorou algumas lágrimas, pensou nele e em como o queria protegido. Pijama escolhido: camisola cheia de babados. Banho quente, shampoo de lavanda. Pantufas de coelhinho. À beira da cama, paz antecipada, frascos esvaziados na garganta rosada da ruivinha. Quentinha na cama, chá de cidreira, o amor é tanto, tanto! Dieu réunit ceux qui s’aiment, sono, sono. Paz, paz, paz...


2 Moedas no Cofrinho:

  1. Cris Andersen disse...
     

    hum... por que será que eu tenho a impressão que todos os personagens são meio deturpados, cheios de problemas emocionais e que no fim das contas se matam?

    O.o

    Fiquei até triste
    =~~

    Escreve um conto feliz?!?!

  2. Moisés Corrêa disse...
     

    Uau! BOM! Eu gostei o estilo ui ui ui... E tipo! Ela sentia-se sufocada e suava, mesmo estando (teoricamente) morta!! Entao... Apesar da problematica dela nao ser tao aprofundada (afinal, que raios de problemas ela tinha pra ser pessima filha e noiva?) isso tudo se resolve ao saber q a moca era meio irreal... Tudo isso pode ser um pesadelo mesmo, no final das contas... ou nao

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