Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

Cartas de uma jovem Iarima

Pelotas, 9 de junho de 2008

Cara Iarima,

Podia começar chamando-te (ou “me”, afinal és quem eu serei) de amada. Tenho aprendido o básico, me amar acima de todos os outros. E não por causa da bobagem de “se tu não te amas, quem vai te amar?”, isso é ridículo. Tenho me amado porque sou, cada dia mais e mais, quem eu queria ser. Estou no meio do caminho, corda estendida, para quem eu desejava me tornar. Gosto de estar com meu namorado, gosto de estar com meus amigos, gosto de estar com pessoas da minha família... Mas, acima de tudo, não me canso mais de mim mesma. E isso é fundamental, acredito. Apesar das marteladas, do sofrimento de anos passados, estou mais segura agora. Processos, sempre, nada estático. Posso ser fixo-fixo-fixo, mas a astrologia não me tolhe: antes, ela me liberta.

Estive me construindo nos últimos anos, pedaço por pedaço. Errei um montão de vezes, claro, no entanto... Tenho acertado. Quero acreditar – gosto de acreditar – que sou uma pessoa criativa. E essa é a minha busca, quero depender da minha criatividade pelo resto da vida. Por isso, obviamente, o que me atrai é o que desafia a minha capacidade criadora: o estilismo. Estilismo de palavras e personagens – Iarima escritora -; estilismo de tecidos e padrões – Iarima estilista. Para ambos, tenho de ser quem eu sempre quis ser. E quero ser boa neles, talvez mais em um do que em outro, mas não posso admitir ser simplesmente comum, ordinária, mais uma. Esse é um dos meus medos mais ridiculamente presentes: ser uma em um milhão.

Esse ócio, alguns podem chamar de “inutilidade”, porém não me importa nem um pouquinho, tem clareado todas as coisas. Apesar dos dias cinzas e levemente pesados, dentro de mim faz sol. Ou aos meus olhos, como parecer menos megalomaníaco. Crio, ou tento debilmente fazê-lo. Tenho escrito um pouco menos, é verdade, contudo tenho explorado outros aspectos. Ontem quase terminei a primeira peça de vestuário na qual trabalhei. Com a ajuda da minha mãe, tirei o molde, risquei o tecido, cortei, alinhavei, experimentei, ajustei e costurei. Faltam os acabamentos e os botões – hoje à tarde os comprarei -, mas ele está ali! Um colete feito a partir de calças imensas! Estou tão cheia de satisfação, mais feliz, ainda, do que quando acabo um conto. Parecia mais difícil, mas não é. Tudo fez sentido, e eu até fiz alterações no modelo! Hoje à tarde pretendo tecer uma manta pro meu namorado, bem quentinha e feita com todo meu amor. Fá-la-ei no tear, é mais fácil do que com as agulhas de tricô, e ficará pronta rapidinho. Talvez ajude a encher o tempo essa atividade toda, essas semanas que me separam do Heitor. Tenho tantas idéias para mantas, bolsas, saias... Talvez me anime, mesmo, a costurar um blazer (com a ajuda de mamãe tudo, claro!)...

Como comecei, gosto de estar comigo. Acho-me interessante, apesar das banalidades inerentes. Não falei muito do namorado, dos amigos e da família porque hoje é sobre mim. Ou “ti”, uma vez que escrevo essa carta para mim mesma daqui 20 anos. Foram esses dias “inúteis”, cara Iarima, que podem ter definido os teus rumos. Espero que o continue me equilibrando na corda estendida, saindo de quem eu “tinha sido” e rumando para quem “me tornarei”. Estou a tornar-me quem tu és.

Travessia, sempre.

Com Amor,

Iarima

6 Moedas no Cofrinho:

  1. Moisés Corrêa disse...
      Este comentário foi removido pelo autor.
  2. Moisés Corrêa disse...
     

    Que tipo de cartas escreverei para a Iarima de vinte anos na frente??

  3. Sandrine disse...
     

    Que ótima idéia e que bela carta. Tomara que fiques feliz lendo isso dentro de 20 anos :)

  4. Cris Andersen disse...
     

    Ah, ta aí, talvez seja de ócio e criatividade o que estou precisando. Critividade falta aos montes e ócio? As vezes nem lembro mais o que isso significa. Quem sabe um dia eu aprenda a costurar roupas legais. Hoje em dia só costuro pele, e mesmo assim não fica lá muito bom.

    :S


    E eu não me animo a escrever para daqui 20 anos, até porque não consigo me enxergar 20 anos à frente.

  5. Moisés Corrêa disse...
     

    Mas e eu que nao me enxergava na missao e tambem tive que escrever uma carta para mim mesmo no fim da missao??

    Sei que a Cristine nao vai ler isso de novo, mas se ler...

    Eh facil!! Faz parte da criatividade ;)

    Basicamente nos soh temos que nos explicar do porque estamos tomando esse tipo de caminho, dai fica mais facil de explicar os arrependimentos (que visao pessimista da vida)

    Ou entao nos podemos dar os creditos de nosso sucesso para nosso eu de vinte anos atras.

  6. Heitor "Pimenta" disse...
     

    E eu vou ganhar uma manta!!!!

    ;)

    Te amo minha xubs

    Daqui a vinte anos a gente re-lê essa cartinha juntos..

    :)

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