Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

«Les modes passent, le style est éternel. La mode est futile, le style pas.»

Depois de uma semana idílica, sem brigas ou problemas, com um vislumbre do futuro próximo, eu deveria falar sobre as maravilhas da minha vida naquele período de dez dias.

Mas, ontem à noite, morreu Yves Saint Laurent. Grande coisa, dirão uns; quem diabos é esse? perguntarão outros. Não me importa. Não me importam as opiniões de outros sobre a decisão que eu fiz. E essa decisão implica, ao menos, um post sobre esse grande estilista... Um dos maiores, sem dúvida.

Leonino, de primeiro de agosto por que eu não nasci um dia antes???, ele revolucionou o mundo da moda. Fútil? Talvez, ele mesmo considerava a moda assim, fútil e passageira. Mesmo assim, ele mudou a forma com que as mulheres se vestem. Sim, foi ele quem introduziu as calças no vestuário feminino. Além das calças, ele popularizou ternos (na verdade, o conceito de smoking foi criado por ele) femininos, os looks mais andróginos. Ah, grande coisa... Mas será que essas pequenas mudanças não refletem no papel da mulher na sociedade hoje? Sem esquecer que o visual beatnik foi tão famoso no início dos anos 60 (era pré-Hippie-Twiggy) por causa dele. Prêt-a-Porter, pronto para usar. Yves Saint-Laurent, apesar de ser talentosíssimo na alta-costura, desmistificou a moda, a abriu para as mulheres mortais – que tenham dinheiro, claro. Mas nada tão excessivo quanto os absurdos do Versace - . Ele tentou traduzir o estilo à época corrente, viu a força das mulheres e de sua liberação e criou roupas para elas. Nada tão masculino quanto os ternos Armani, claro, Saint-Laurent preservou a feminilidade – e a praticidade – com os vestidos trapézio. Frases memoráveis dele ecoam, pelo menos no meu pobre mundo de aspirante a estilista... Ele queria ter inventado a calça jeans...

Não consegui dizer as coisas que eu queria, mas só posso afirmar: apesar da inutilidade do assunto, a morte de Yves Saint-Laurent é emblemática. Enquanto a grande e também leonina Coco Chanel deu liberdade às mulheres, Saint-Laurent as investiu de poder. Porque o modo como nos vestimos e a forma como nos sentimos está inter-relacionada. E a contribuição desse pied-noir está muito além de passarelas, boutiques na Rive Gauche, botas de cano alto e calças compridas. O que somos hoje, mulheres fortes e vulneráveis, pode ser um reflexo daquilo que ele popularizou. Porque, no final das contas, “Rien n'est plus beau qu'un corps nu. Le plus beau vêtement qui puisse habiller une femme ce sont les bras de l'homme qu'elle aime. Mais, pour celles qui n'ont pas eu la chance de trouver ce bonheur, je suis là.” [algo como: Nada é mais belo do que um corpo nu. A roupa mais bela para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Mas, para aquelas que não têm a chance de conhecer essa felicidade, eu estou aqui.]. Eu conheço essa felicidade, mas não posso andar pelada por aí. Somos produtos do nosso meio, somos produtos da moda. Apesar de toda a sua futilidade, ela está imersa em variados aspectos das nossas vidas... Sem se mostrar essencial, sempre nas entrelinhas.

Por isso a escolhi.

E faz sentido, claro. Perdi tanto tempo me afastando de algo tão vital pra mim... A inutilidade onipresente.

2 Moedas no Cofrinho:

  1. Cris Andersen disse...
     

    Bem, fico esperando aos tais comentarios maldosos, ja que fiz parte do grupo que disse "quem diabos é esse?" à menção do nome.

    ^^

    da moda eu fujo. Mas fujo mesmo.
    ^^

  2. Moisés Corrêa disse...
     

    Interessante! ^^

    Eu nao vejo a grande diferença entre um físico, escritor e estilista. Todos eles produzem cultura e de certa forma serao estudados pelos futuros paleontólogos, então...

    Acredito realmente que mudanças culturais afetam DEMAIS a organização social do mundo. Como tu citaste no texto, a calça comprida... Revolução Social, Cultural e Sexual. Muita coisa advindo de pouca... (algumas vezes eh muita coisa, depende de quanto tecido adiposo tem e de quanto tecido precisamos para cobrir esse tecido adiposo.)

    Por fim, Gays são engraçados. Eles são todos estranhos.

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