Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

La Vie en Rouge

Uma vez uma menina foi vista. Moça, na verdade, bem mais que menina. Ela já vivia há uns dezoito anos, passara pelas fases inerentes à condição humana e andava sempre pela rua. Seu nome, bem... Dele eu não me lembro, talvez nem o tenha aprendido. O que importa é que ela foi vista, um dia, passeando pela sua cidade... Morava no norte da Alemanha. Tudo bem que naquela época não existia uma “Alemanha” propriamente dita, unificada e todas essas coisas.

Ela foi vista no século XIX. Um vestido azulado, um coque restringindo os cachos de seus cabelos avermelhados, os olhos cinzentos. Quem a viu foi um rapaz de bigodes escuros, cabelos penteados para trás, uma xícara de chá na mão. Ele gostou do que viu, procurou os pais da moça e se tornou seu noivo. Ele gostava dela justamente pelo que ela era: uma moça absolutamente normal e igual a qualquer outra.

Essa moça normal se casou com o rapaz bigodudo, cozinhou refeições e pariu filhos. Mas antes de tudo isso, ela odiava ser normal. Seus lindos olhos cinzas eram absolutamente iguais aos olhos de todas as meninas da sua cidade! Seus cabelos avermelhados eram parecidos com os cabelos de muitas das jovens que conhecia. Ela sonhava ser diferente na aparência, pois sabia ser diferente por dentro. Quis ter olhos amendoados e cor de mel, cabelos muito lisos e negros, a pele mais escura... Ela talvez não soubesse, mas queria ter nascido índia.

Quando virou Frau Redü, a jovem parou de se lamentar e passou a lavar as roupas de seu marido.

Ela só não contava com a reviravolta que aconteceria na sua vida de recém casada. Herr Redü perdeu todo o dinheiro que tinha em um negócio capcioso e resolveu fugir da Terra dos Poetas e Pensadores, levando consigo sua jovem e grávida esposa.

Depois de semanas em um navio cheio de lavradores, Herr e Frau Redü chegaram ao Brasil. A jovem esposa, já conformada a sua condição de mais uma, foi surpreendida pela diferença das pessoas nesse país quente! Ninguém era parecido com ela. E ela sorriu, se tornou a pessoa diferente que sempre quisera ser sem ter que mudar nada.

Viveu feliz com o marido e os filhos. Teve netos e bisnetos.

Cento e cinqüenta e poucos anos depois, sua bisneta mais parecida tinha algo de diferente. Os olhos, a pele e o corpo eram iguais aos dela. Mas o ruivo dos cabelos se tornara castanho. Não riria tanto a Frau Redü ao ver que sua bisneta iria encher seus cachos de químicas para conseguir chegar perto do seu, odiado, tom natural de cabelos?

7 Moedas no Cofrinho:

  1. Conde Vlad Tepish disse...
     

    Obrigado, mil vezes obrigado por elevar o ânimo deste desolado vampiro que perdeu um de seus gatos com esta obra-prima que guardarei com carinho... De repente me bateu uma melancolia, uma vontade de voltar aquela época, lá pelos idos de 1852, (naquela época eu estava na França fazendo não sei o quê) e conhecer a linda jovem, ruiva natural, sua bisavó querida; ver se ela era muito parecida com você, na verdade estou imaginando uma Iarimá com roupas do século XIX passeando talvez pela Bavária? Ou aqui pelo sul.. Ela escolheu o lugar certo, o RS é o melhor estado do Brasil para se viver atualmente, pelo menos, o mais civilizado... Vou guardar este texto melancolicamente e 'quente, vivo ao mesmo tempo'; maravilhoso, digno de ser publicado, na biblioteca de meu castelo com todo carinho, obrigado Iarimá... No entanto eu sempre imaginei que sua ascendência fosse húngara ou romena por causa do belo nome Redu... Bom, a Europa é toda misturada e os países são tão próximos... E ter ascendência alemã é uma grande honra também, Mais uma vez digo que estou comovido com teu post! Fico pensando que na Colônia Espiritual em que estiver agora, Frau Redu já deve ter ouvido falar de teu post e deve estar muito orgulhosa da bisneta querida! Se sentires um perfume diferente perto de ti pode ser ela... Beijos do teu amigo conde...
    Nhac, nhac, nhac... Voei...(Não muito alto)...

  2. Ingridesigner disse...
     

    Nossa, muito lindo.
    Lindas são as seqüencias dos fatos, os sentimentos e ânsias que perduram por séculos, as possibilidades de antes e de agora.
    Extremamente especial saber sobre suas origens. Ainda mais especial é poder escrever sobre elas de uma forma poética e comovente.
    Como também sou de orgem alemã, fiquei desejando também, assim como o vampirão ai de cima, estar lá na Alemanha, do século XIX... sei lá, são sensações estranhas.
    Mas já que estamos aqui... muita tinta no cabelo porque a minha loirisse precise!!!!!

    Abraços!!!

  3. Moisés Corrêa disse...
     

    Eu cliquei no brilhante! ^^

    Que legal ^^!

  4. Aline Dias disse...
     

    depois dos 16 anos se vira frau ou herr. linda história ;)

  5. Guilherme Corrêa disse...
     

    Hallo, Frau Redü. Ich muss sagen das deine Geschichte sehr gut ist. Küsse! :)

  6. Conde Vlad Tepish disse...
     

    Absurdo, inadimissível!!!
    Discordo profundamente daquele que clicou no 'chato'!!!!! Só vi agora, distraídamente, ao postar no post acima desse! A Iarima faz uma história digna de ser publicada e alguém, que nem quis se identificar, clica no 'chato' assim nem mais nem menos! De onde veio este espírito de inveja? Seja lá quem for considere-se desafiado (a) para um duelo, sou o melhor mestre em esgrima da Transilvânia e estou pronto para lutar pela minha senhora Iarima à qualquer hora! Igor Pança, minha armadura, minha espada e meu cavalo!!!
    -Sua Excelência fala do pangaré lá de baixo e daqueles pedaços de lata enferrujados lá do sótão?
    EN GARDE!!!!!
    Iau! pare de me espetar com essa lança enferrujada, não fui eu, ui! Iaaau!

  7. Conde Vlad Tepish disse...
     

    - Foi no post de baixo vampiro caduco e cego! Aiiii meu traseiro de corcunda!
    - Ora, me confundi! Foi o 'Oito vezes Oito' e não o 'La Vie en Rouge'... Mas de qualquer maneira, o desafio continua!!! Deve ter sido algum ex-amor rejeitado pela Iarimá!
    - É, o que meu traseiro de corcunda tem a ver com isso, ohhhhh!

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