Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

A Sintaxe das Coisas

Em épocas de Feira do Livro e de reformas gramaticais, eu me pego em humores morfológicos e vejo a sintaxe das coisas. É uma dança lingüística na minha cabeça, e pode parecer realmente enfadonho a pessoas não interessadas por tais temáticas.

Não vou me prolongar em tecnicidades – até porque não me garanto nessas argumentações - , entretanto não posso deixar de escrever sobre alguns fatos.

Primeiro: A reforma da língua... Um tratado de uniformidade entre os países lusófonos me faz sentir desconfortável. Não concordo com esse tipo de homogeneidade lingüística, acredito que, quanto mais rica a língua materna da pessoa, mais criativa ela pode ser – por isso americanos são levemente lerdos. Podem jogar pedras e dizer que não é nada de mais essa reforma, que só perdemos o trema e mudamos a regra do hífen, porém meu medo se fundamenta nas futuras reorganizações de língua (quem leu 1984 entende minhas crises de pânico), em uma supressão de palavras para que não se saiba pensar e sentir daquele jeito... Seríamos mais burros, mais insensíveis, mais fáceis de dominar e controlar (imaginem não conhecer, por exemplo, a palavra “amor”? É um exemplo meio cafona, reconheço, mas se não podemos pensar o sentimento, se não encontramos meios de expressá-lo com palavras, é só uma questão de tempo até que nos esqueçamos dele – não a princípio, mas em futuras gerações). Além disso, se o que se busca é uma “língua única”, é uma questão de tempo até que se resolva banir dialetos e expressões regionais – afinal, não se fala em Pelotas o mesmo português de Maceió. Obviamente isso tudo se resume à língua escrita, mas mesmo assim... Li Saramago grafado em Português de Portugal a vida toda e nunca deixei de entender... Não é o C de objecto que me impede de entender o que ele está a querer expressar. Essas pequenas diferenças não criam barreiras ao entendimento e, aos que gostam de dizer que a língua que se fala no Brasil não é a mesma de Portugal, dêem uma pesquisada no que configura, de fato, a definição de Língua. Isso vai esclarecer algumas dúvidas que eu, mera entusiasta, não poderei tirar.

Segundo: ganhei um livro do meu queridíssimo namorado: A Jangada de Pedra do “Zé” Saramago. Esse português velhão que anda na moda por causa da versão cinematográfica de um dos seus livros mais famosos consegue, desde a primeira frase, me deixar absorta em comunhão com seu discurso. Sempre protelei a leitura de seus livros, tinha preconceito por seu prêmio Nobel e essa palavra é oxítona e por toda a mitificação de suas personagens e seus enredos. Em uma das greves do meu Ensino Médio acabei por retirar de uma biblioteca a sua História do Cerco de Lisboa e o velho me ganhou. Sobre esse livro, o meu favorito entre todos os livros, vou escrever uma ode um dia, quando ele cair nos meus braços como presente. Enfim, Saramago é meu escritor predileto desde as primeiras vírgulas. Ficava pensando, por que gosto tanto dele, não é nada de extático aos outros... Percebi uma das razões, estava na cara desde o início, suas linhas de raciocínio se enveredam por caminhos aparentemente ilógicos e voltam, resplandecentes, ao ponto onde devem chegar. E disso eu entendo... E ele usa as palavras de um jeito tão... Ah, não consigo explicar, só posso me sentir aliviada por tê-lo lido em Português, língua materna de nós dois (e de todos os meus leitores aos quais eu indico a leitura dos livros do Zé... Não é fácil, mas recompensa)... Imaginem quanto dele se perde na tradução? Enfim, fiquei feliz com meu livro novo e já comecei sua leitura.

Terceiro: Somos excluídos digitais aqui no quarto do Heitor (a internet wireless da casa não chega aqui por causa das paredes – e do desktop e dos outros dois laptops mais bem localizados), e isso dificulta um pouco a comunicação com outras pessoas. Além disso, estou com o meu namorado querido – por isso nem me esforço mesmo.

Feira do Livro ainda existirá depois de terça e eu prometo passear com todos, estou com saudades.

Beijos a todos,

Iarima Redü meu nome não vai perder a carinha feliz!!!

8 Moedas no Cofrinho:

  1. Conde Vlad Drakuléa disse...
     

    Querida Iarimá, fico feliz por estares junto de teu Heitor... Em relação a reforma gramatical também sempre fui contrário, acho que os sotaques regionais por exemplo como bem disses-te, são um dos maiores tesouros nacionais e devem ser mantidos e defendidos; tri, bah, tchê, são a alma do RS e visse, óxente a alma da Bahia por exemplo, e que aliás, tem tudo a ver com a herança lusitana naquelas paragens de cima, assim como os sotaques gaúchos com as heranças castelhanas e em relação ao Saramago apesar de não ser muito fã dele, gostei da adaptação daquela obra dele no cinema... E tem alguns livros dele que são interessantes... Esse que o Heitor lhe deu é um deles, pois que este eu já li e gostei...
    Grande beijo do conde Vlad Drakulea, que é vampiro e sabe virar morgueço... A Frau é tão linda, viste o último texto dela? :)
    Voei! Flap!Flap!Flap!

  2. Conde Vlad Drakuléa disse...
     

    "Redu é uma cidade belga, situada nas Ardenas.

    Nesta cidade existe uma estação de telecomunicações espaciais."

    Achei pesquisando o nome Redü na WEB... Será que a Iarimá tricota roupas de astronauta também??? :)

  3. Cris Andersen disse...
     

    Odiei a reforma também, embora eu nem sequer tenha me dado ao trabalho de procurar quais foram as mudanças mesmo.

    Mas nem se pode esperar muito, desde quando político sabe alguma coisa de lingua? Do mesmo modo uqe não sabem nada de leis... é só ler o codigo penal (e olha que minha área de atuação passa longe disso) que eles não entendem porcaria nenhuma do que fazem.

    É triste. Eu continuarei colocando o "vêm" no plural com acento.
    humpf!

  4. Moisés Corrêa disse...
     

    AAhhhh, tu postaste!!

    E ai, como foi a Semana?

    Primeiro: A vida é curta ^^, e isso tudo é uma conspiracao para implantar a nova ordem mundial!!!

    Segundo: Nunca li Saramago... ^^

    Terceiro: Excluidos digitais... hehehe como se tu REALMENTE estivesse se importando com isso. ;)

  5. Aline Dias disse...
     

    Tu já pensaste na idéia (besta) de que o nosso presidente semi-analfabeto assinou a nova reforma gramatical?!
    (posso ser apedrejada por isso, mas é o que eu penso no sentido de quão sem fundamento isso é)

    Sobre as diferenças, eu concordo com tudo já escrito no teu texto. Nesse momento estou lendo “As Ondas” em “português de Portugal” e a compreensão é total, realmente não vejo motivo para universalizar as línguas portuguesas, se perde a origem de cada povo e realmente, seria como andarmos para trás.
    Sem grandes elucubrações, apenas metendo o pau mesmo.

    Adorei te ver na feira e quem sabe na quinta a gente marca algo.
    Beijos.
    Adoro-te ;****

  6. INGRID SCHERDIEN disse...
     

    Muito bom. Concordo com você. A relação que fizestes com 1984 é totalmente correta.

    Bjos.

  7. Moisés Corrêa disse...
     

    Será que o Lula já não pode ter tido tempo suficiente para aprender a ler e a escrever direito? Ninguém ficaria tanto tempo semi-analfabeto e querendo ser presidente do Brasil...

    Orgulho de pseudo-academico ¬¬

  8. Cláudia I, Vetter disse...
     

    '' pensar o sentimento''
    é a dificuldade clara que compreendo nessa sua sensibilidade tá tátil na lingüística.
    Confesso que o desespero também me bateu, e me sinto bem revoltada.


    E concordo, que tua carinha feliz não mude, nem as incríveis acentuações da beleza na linda língua! ai, ai! ♥

    ;******, Iarima Redü!
    ;D

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