Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

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Onzes de Outubro

Hoje eu pensei sobre como a minha vida mudou nos últimos oito anos.

Bem, qualquer vida muda em oito anos... E não passei por coisas tão dramáticas, elas só interessam a mim.

Mas eu amei muito durante esses oito anos. Criei amizades, perdi amizades, reconquistei pessoas e as bani.

Tive três namorados oficiais – um péssimo, um regular e o perfeito, o qual é meu namorado ainda - , um primeiro relacionamento sem denominações e sem muitas conseqüências (jura...), uma ficada de quinze dias que me reduziu a pedaços e um “caso” de um mês que me preparou para a perfeição que viria a seguir (isso não está em ordem cronológica, que fique bem claro).

Li muitos livros, quis fazer faculdade de História, depois resolvi tentar Filosofia, desisti dela e iniciei Letras, não fui bem sucedida e agora quero ir pra Moda. Melhorei o inglês, adquiri um certo domínio no Espanhol e me atrevi ao Francês.

Fui aluna perfeita, aluna mais ou menos, aluna matadora de aulas e depois voltei ao esforço.

Briguei com minha mãe, perdi minha avó, perdi meu avô, apoiei minha mãe, me apaixonei pela minha irmã e perdi meu tio mais querido.

Ganhei a gata Preta, perdi três gatinhas – duas para a gravidade e uma para a máquina de lavar roupas.

Usei preto e fui preconceituosa, me abri às cores e às coisas novas – tudo culpa do Heitor.

Aprendi a tecer e a tricotar, a fazer moldes e alinhaves.

Sei lá mais o que fiz, refiz ou desfiz.

Só sei que, clichês à parte, Non, rien de rien Non, je ne regrette rien...

Feliz Dia das Crianças, bisous pour tous!

Lay down your reddish head

Há duas semanas a campainha fez ding, depois fez dong. Então, depois das suas reclamações, uma caixa foi entregue nas mãos da mulher que ficou grávida três vezes e trouxe ao mundo a minha irmã, depois a mim, e depois o meu irmão. Dentro da caixa, novos travesseiros à família.

Mas eles não são apenas travesseiros, apesar de servirem para o descanso de nossas cabeças. Eles são símbolos da vida nova a vir. A primeira coisa nova para o apartamento novo, para a família nova. Família de três, uma mãe e dois filhos. A pessoa que seria o pai será deixada para trás, definitivamente. Ele não ganha um travesseiro, ele não ganha nada. Nem as minhas palavras, o cortei há meses.

Entretanto há dois travesseiros sobressalentes. Não, não são sobressalentes, eles já têm donos: minha irmã mais velha, quando ela vier visitar, e meu amado namorado, quando ele passar a noite em casa. Essa é minha família, além dos amigos próximos e da família do namorado querido. Afinal, eu não estou sozinha no mundo.

Durmo no meu travesseiro novo agora, acabei por acostumar-me ao seu cheiro de novo e à sua falta de lembranças. Ele é perfeito pra vida nova, e receberá suas lágrimas quando o tempo chegar... Ele faz minha cabeça descansar, me leva ao sono e às manhãs. Ele vê minha gata encher a cama de pêlos e conforta a minha raposa de pelúcia durante as tardes. Ele serve de apoio às minhas costas enquanto tricoto o blusão azul.

Mal posso esperar pra deixar para trás esse apartamento. As lembranças boas de camas quebradas durante RPG, de conversas com amigos queridos, de tardes com o Heitor e de noites ante as luzes da cidade ficarão comigo, mas o carma de traições e tristeza ficará longe.

Quero sentir o cheiro repugnante de tinta sobre as paredes, quero passar pelo stress da mudança, quero readaptar minhas gatas e quero receber meus amigos, velhos e novos, num lugar bem menor e bem menos cheio de histórias, mas muito mais feliz.

Travesseiro novo, vida nova.

Dois de Agosto

Eu só posso dizer o tanto possível sobre o meu aniversário de vinte e um anos. Com certo atraso, fato, mas a preguiça foi vencida por inúmeras investidas e desistências, precisava esperar para ver o todo. E isso só acontece com o distanciamento.

Foi um máximo, me diverti mais do que esperava. Me senti bonita, querida e parte de um grupo. Grupo formado por minha causa, ego leonino... Comemos muito, rimos, dançamos, jogamos vôlei com grupos de balões e jogamos Imagem&Ação. Quis que durasse pra sempre e quis que acabasse logo. Vivi aquele momento a plenos sentidos, sim, antes de jogá-lo nas minhas lembranças.

A Ariadne me fascina com suas risadas de galpão, com sua prontidão pra por a mão na massa – no nosso caso, na carne de hambúrguer - , e sua personalidade absolutamente única. Ela não conhecia algumas pessoas, ninguém muito bem (além de mim), e não teve problemas em se entrosar. Sua presença não poderia ser dispensada, ainda bem que ela veio.

A Cristine traz consigo o recomeço, um sopro de ar novo nas minhas relações meio estagnadas. E o legal é que ela ainda me conhece como poucos, não mudei tanto quanto ela pensa. Só uso cores, cortei a franja e pintei o cabelo. Aqui dentro é a mesma coisa. Quero muito falar com ela, precisamos ter encontros semanais no Café Cult pra pôr em dia nossos fragmentados sonhos de lembranças de todos esses inúteis anos de separação.

O Filipe, meu querido irmãozinho, está crescendo. E é a melhor companhia de todos os dias que eu poderia desejar ter.

O Moisés é uma das maiores influências na minha vida. A alma de qualquer festa.

O Heitor é o umbigo do mundo. O amo mais e mais, sempre em expansão. Nem tenho como precisar tudo, agradecer por tudo. Só posso ser feliz porque ele existe e, com todas as opções de meninas no mundo, ele me escolheu...

A Kali estava chata.

E isso tudo, muffins incendiários, almôndegburgers, brigadeiro desafiador, bolo de leite condensado da Ieda, mimimis foram antes do meu aniversário...

O dia dois foi calmo, tive tempo pra refletir.

Começo um diário, preciso escrever com a caneta. E minha vida vai melhorar muito. Com vocês, não pode piorar...

Obrigada pelo chicote, Cris e Moisés. Obrigada pela lã vermelha, senhor Honorovo. Obrigada pelo casaco mais fashion do mundo, pelo colete mais charmoso e pela legging mais estilosa, Heitor. Obrigada pela camisa mais tchénha e pelos sapatinhos mais “minha cara”, querida sogra. Obrigada pelas botas lindas e confortáveis, “vó” Wanda. Obrigada pela sombrinha adorável e pelo kit de frescurinhas de banho, “vó” Maria.

Obrigada aos meus amigos de Orkut pelos recados, ao Victor – que fez falta aqui, mas precisamos falar e falar – pela homenagem no blog e tudo mais.

Agora tenho vinte e um anos. E cada vez me sinto melhor.

O Último Ponto da Carreira

Nos idos tempos de junho desse ano, eu dava meus primeiros pontos vacilantes na arte do tricot. Tenho várias historietas e anedotas tricotísticas para compartilhar com vocês, mas essa não é a hora. Quero falar sobre minha dificuldade com o último ponto da carreira. É muito chato tricotar o último ponto, lembro que perdi vários no meu teste cor de rosa. Ele fica estranho, feio... E parece que vai cair da agulha a qualquer momento. Todos os pontos parelhinhos, bonitinhos e ele ali, irregular e tosco. Tento puxar o fio de maneiras diferentes, aperto bem o dedo na hora de passar o ponto de uma agulha pra outra, mas nada funciona e ele continua saindo todo torto e zombeteiro. Sou uma iniciante, achava que era por isso, mas minha mãe hoje comentou que o último ponto sempre sai feio. Claro, ao tricotá-lo de novo, quando ele magicamente vira o primeiro ponto da carreira seguinte, ele se ajeita. Mas a tortura vai continuar a cada fim de carreira, o pontinho rindo da minha falta de habilidade.

Essa minha falta de tato com o último ponto da carreira é eterna. Não sei lidar com encerramento de ciclos, tudo sempre sai esquisito e só se ajeita na hora de recomeçar. Mas dessa vez não é fácil, pelo menos nada comparado à rapidez de iniciar a próxima carreira do cachecol. Nessas outras situações as coisas ficam chatas, complicadas, esquisitas e dá vontade de ignorar o ponto solto, ir fazer outra coisa... Tecer, talvez. Entretanto, apesar da minha vontade, não é assim que as coisas funcionam com as pessoas.

Eu passei por muitas coisas com meus amigos, por exemplo. Criei laços, perdi contato, ri e voltei a falar com eles. A lã se enrosca quando quero me afastar de alguém. Tenho vergonha de expor minha vontade, principalmente se nada aconteceu de grave entre essa pessoa e eu. Pelo menos que ela saiba...

Não que eu queira brigar com velhos amigos e só andar com pessoas novas, é o contrário até. Pelo menos em comparação de tempo, meus atuais confidentes são participantes da minha vida há uns meses mais que os outros, ai que enrosco de fios!!! Assim, tenho uns amigos amados há anos. Outros, há menos anos. Entre esses, tem um grupo que me encantou, me fez querer ser outra pessoa pra me enquadrar nas suas vontades e me quis bem. Mas eu nunca fui parte deles, não como eles foram de mim. Alguns desses amigos – eu gosto de todos, pra deixar claro – foram mais importantes pra mim e, o principal na hora da diferença, me deixaram ser mais importantes pra eles. Esses eu quero sempre por perto, apesar de não podermos passar os dias grudados como antes. O problema é um só: eles vêm com o kit dos outros, os que eu não faço tanta questão de ter ao meu redor. E parece que é aí que o ponto fica estranho, não dá pra separar uns de outros... Mas eu não sou parte de um círculo estático de amizade, sou só eu e tenho indivíduos como amigos... Mas como dizer isso sem ferir os outros, aos quais eu quero bem, e sem despertar desconfianças? Como ser clara se há tanto peso nesse silêncio?

É aí que parece que eu perdi o ponto, mas sei que quero recomeçar com os amigos que mais me fazem falta nesses dias de mudanças... Vou ter de dar um jeito nessas coisas, ou então como tricotar essas amizades sem ter vontade de jogar fora as agulhas e procurar outros trabalhos... Talvez escreva umas cartas, vá a alguns cafés e dê uns telefonemas pra marcar os dias dos reinícios de carreiras. Afinal, me saio bem com as palavras e atrás de uma xícara de café.

Iarimas

Respirar projetos, sempre. Preciso ter o que fazer, mesmo no mais completo ócio amoroso das férias do Heitor. Seja tricotar uma manta, tecer outra, fazer uma bolsa, inventar um casaco, escrever coisas no blog ou tirar umas fotos. Não posso dormir o dia todo, não posso viver só de beijos e mãos dadas.

Meu namorado é perfeito pra mim. Ele também precisa de mais coisas, viver de um só é doentio. Até impossível a um casal de tamanhas distâncias na maior parte dos dias. E passar algumas horas de um sábado sentada, na frente de um computador, procurando por formas de transpor idéias para uma lona é exatamente isso... Sou feliz por não ser somente uma namorada. Sou isso e tanto mais, eu sou mais e mais. Posso ser tudo, posso ser minhas idéias e o meu amor, posso me dedicar a coisas sérias e a fofocas entre amigos.

Banal essa constatação, mas nem tanto pra mim. Alguns sabem de como tive relacionamentos desgastantes e obsessivos. Acho que nada mais pode ser operático como já foi, comigo. Cansei de tamanhos dramas, agora minha atuação é menos teatral... Talvez as sutilezas do cinema combinem melhor comigo.

Hoje sou menos Maria Callas e mais Regina Spektor. Porque preciso de umas loucurinhas, nunca serei absolutamente normal.

E agora, ao tricô.