Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários.
Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas.
Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento.
Gosto de mim, contudo e com tudo.
Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado.
Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs.
Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos.
Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor.
Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.
Eu ainda existo, ainda gosto das coisas, ainda amo incomensuravelmente o Heitor, ainda amo meus amigos, ainda luto contra problemas alimentares, ainda ouço Regina Spektor.
Aliás, um trecho de “On The Radio” é importante em tempos de transição:
No, this is how it works
You peer inside yourself
You take the things you like
And try to love the things you took
And then you take that love you made
And stick it into some
Someone else's heart
Pumping someone else's blood
And walking arm in arm
You hope it don't get harmed
But even if it does
You'll just do it all again.
Às vezes a gente pensa mal de si mesmo, acha que tudo é chato e que nada de interessante acontece nas nossas vidas. É uma inversãozinha no início, depois acaba se tornando interminável fonte de desentendimentos, depois pode fazer perder de vista a realidade... Como a palavra medíocre, por exemplo. A definição do dicionário é: “o que é de qualidade média”, mas as pessoas se acostumaram a usar essa palavra de forma pejorativa, como se seu significado fosse algo de ruim. Usou-se tanto a palavra de forma errada que o hábito a tornou feia, e se perdeu de vista seu real significado.
Às vezes a gente julga mal as pessoas que nos cercam, acha que elas não poderão suportar viver em um mundo sem ilusões, sem erros. Mas as pessoas se recuperam de desilusões, a verdade é sempre o melhor. Pode ser chata, pode ser mediana, mas ela é o que, deveras, existe. E não há como contornar eternamente, criar desculpas eternamente, usar “licenças poéticas” com a vida de verdade.
Posso tê-lo perdido de vista, mas Nietzsche continua sendo o único filósofo que fala à minha alma, ele quer derrocar os valores, ele quer criar um mundo sem ilusões.
Em dias como hoje, mal-preparados, eu me pergunto umas perguntas sem jeito de responder. Sobre erros, enganos, gafes. Não estamos livres de errar, nunca. Erros bobos, erros sérios. Seja repetir de ano por passar as manhãs no jardim do CEFET, seja mandar rosas vermelhas a uma mãe que acabou de perder seu filho. Uma vida sem erros seria “perfeita” demais, portanto insossa... Insossa como uma casa impecavelmente arrumada, organizada ao extremo – parece haver pouca vida ali. E como pretender não errar? Acredito na impossibilidade de uma vida linear, sem altos e baixos.
Mas a questão que me incomoda não é o erro... São os julgamentos. Por que uma pessoa vai me julgar por ter repetido o ano? Por ter desistido de um curso universitário que não cumpria as minhas expectativas? Por aprender francês em vez de espanhol? Por que uma pessoa vai virar os olhos quando amigos se referem a mim, se dizer superior? Principalmente se a tal pessoa sequer me conhece... Sequer tem a honra de me conhecer.
Tal pessoa, cujo nome não citarei, seria completamente perfeita? Sem erros? Tão boa assim? Acredito que não seja o caso, até porque pessoas bem próximas dela já me citaram falhas. Acreditaria ela que, por tocar o violino, usar roupas alternativas, pretender ser médica é melhor do que eu? E o que é melhor, afinal?
Porque, pra mim, escrever bem é fundamental. Mas pra ti, pode não ser. Pra ti, eu ter me formado um ano depois do previsto pode ser o emblema da minha burrice, pra mim foi só um pequeno contratempo... Deixa-me explicar, eu repeti de ano por problemas pessoais, depressão profunda e comportamento suicida. Naqueles dias tristes, a última coisa que me interessava eram os estudos inúteis do Ensino Médio. Procurava conforto em amigos – que foram meus antes de serem teus -, mas não encontrava. Achei que ficaria bem sozinha, mas precisei de remédios e tratamento. Melhorei por causa disso, por causa do apoio da minha mãe e porque quis. Senti muita vergonha ao repetir de ano, mas me tornei mais madura depois disso. Fortaleci... Não recomendo, mas acredito que tirei o melhor de uma situação adversa. E não sou mais burra do que seria se tivesse passado. Talvez eu seja mais inteligente mesmo do que tu, mas não vou te julgar.
Agora me sinto mais segura, meus passos não são mais tão instáveis. Ainda passei por outros problemas graves, relacionados a comida e imagem corporal, entretanto sou forte o suficiente pra pedir ajuda. Tenho apoio na minha mãe, nos meus irmãos, em poucos amigos e no meu namorado (talvez principalmente nele).
E o meu relacionamento com o Heitor me faz feliz, muito feliz. Me faz segura, ando ao lado de alguém que me ama por quem sou. Por isso, menina do violino, não me desestabilizam as tuas opiniões imaturas. Antes, elas me fazem ter mais vontade de ser quem eu sou, me dão mais determinação pra aprender as línguas que eu quero e me deixam mais confortável com todos os resultados positivos dos meus erros do passado.