Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários.
Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas.
Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento.
Gosto de mim, contudo e com tudo.
Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado.
Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs.
Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos.
Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor.
Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.
Hoje faltam duas semanas mais dez dias pra que as coisas se encaixem e o universo pare de flutuar ao meu redor.
Hoje os carboidratos voltam a ser restritos, os doces banidos e a ansiedade a ser vivida em cima de uma bicicleta ergométrica e de uma fitball.
Hoje eu continuo a tricotar as mangas do blusão do Heitor, e, quem diria, elas são o mais difícil até agora...
Hoje eu continuo a estudar matemática, física e química pra que, um dia, eu possa me tornar uma estilista – ou, ao menos, possa trabalhar com Moda.
Hoje eu volto a usar exfoliantes, hidratantes noturnos e diurnos, um esmalte diferente a cada semana, banhos de creme semanais nos cabelos, gel redutor na bóia que envolve a minha cintura e no excesso de coxas que me incomoda.
Hoje eu volto a cuidar de mim, porque é assim que eu gosto.
Querido amigo, por que complicar tanto? Logo em um dia cheio de projetos, todos perto de suas conclusões alegres, tu resolves incomodar.
Preciso de ti, sabes muito bem. És um de meus orgulhos, a perspectiva de uma mudança em ti faz aflorar minhas futilidades estéticas - sub-repticiamente - e, apavorada, te escondo. Sem ti, não respiro (tudo bem, até respiro, mas deixa-me ser dramática em prol da beleza poética)...
Sempre estás comigo, às vezes nem tão silencioso, mas me ajudas a viver. Parte de mim, assim, colado. Sempre que te noto, sempre, é porque tens algum problema... Algum achaque, lidas com algum espinho, com algumas lágrimas. E eu não me importo, claro...
Mas logo hoje! Enquanto escrevo, desenho, tricoto, teço, costuro. Logo hoje resolves ficar doente, logo nas horas decisivas, logo no último ponto, última frase, último traço... Bem na hora de enfiar a lã na agulha, resolves reclmar atenção. E tenho que te dá-la, claro, ou deixas tudo o que faço repulsivo aos meus olhos.
Por que não aprendes, querido nariz, a espirrar em horas mais próprias? Sim, porque ranho em cima da lã e do papel é bem nojento...
Nos idos tempos de junho desse ano, eu dava meus primeiros pontos vacilantes na arte do tricot. Tenho várias historietas e anedotas tricotísticas para compartilhar com vocês, mas essa não é a hora. Quero falar sobre minha dificuldade com o último ponto da carreira. É muito chato tricotar o último ponto, lembro que perdi vários no meu teste cor de rosa. Ele fica estranho, feio... E parece que vai cair da agulha a qualquer momento. Todos os pontos parelhinhos, bonitinhos e ele ali, irregular e tosco. Tento puxar o fio de maneiras diferentes, aperto bem o dedo na hora de passar o ponto de uma agulha pra outra, mas nada funciona e ele continua saindo todo torto e zombeteiro. Sou uma iniciante, achava que era por isso, mas minha mãe hoje comentou que o último ponto sempre sai feio. Claro, ao tricotá-lo de novo, quando ele magicamente vira o primeiro ponto da carreira seguinte, ele se ajeita. Mas a tortura vai continuar a cada fim de carreira, o pontinho rindo da minha falta de habilidade.
Essa minha falta de tato com o último ponto da carreira é eterna. Não sei lidar com encerramento de ciclos, tudo sempre sai esquisito e só se ajeita na hora de recomeçar. Mas dessa vez não é fácil, pelo menos nada comparado à rapidez de iniciar a próxima carreira do cachecol. Nessas outras situações as coisas ficam chatas, complicadas, esquisitas e dá vontade de ignorar o ponto solto, ir fazer outra coisa... Tecer, talvez. Entretanto, apesar da minha vontade, não é assim que as coisas funcionam com as pessoas.
Eu passei por muitas coisas com meus amigos, por exemplo. Criei laços, perdi contato, ri e voltei a falar com eles. A lã se enrosca quando quero me afastar de alguém. Tenho vergonha de expor minha vontade, principalmente se nada aconteceu de grave entre essa pessoa e eu. Pelo menos que ela saiba...
Não que eu queira brigar com velhos amigos e só andar com pessoas novas, é o contrário até. Pelo menos em comparação de tempo, meus atuais confidentes são participantes da minha vida há uns meses mais que os outros, ai que enrosco de fios!!! Assim, tenho uns amigos amados há anos. Outros, há menos anos. Entre esses, tem um grupo que me encantou, me fez querer ser outra pessoa pra me enquadrar nas suas vontades e me quis bem. Mas eu nunca fui parte deles, não como eles foram de mim. Alguns desses amigos – eu gosto de todos, pra deixar claro – foram mais importantes pra mim e, o principal na hora da diferença, me deixaram ser mais importantes pra eles. Esses eu quero sempre por perto, apesar de não podermos passar os dias grudados como antes. O problema é um só: eles vêm com o kit dos outros, os que eu não faço tanta questão de ter ao meu redor. E parece que é aí que o ponto fica estranho, não dá pra separar uns de outros... Mas eu não sou parte de um círculo estático de amizade, sou só eu e tenho indivíduos como amigos... Mas como dizer isso sem ferir os outros, aos quais eu quero bem, e sem despertar desconfianças? Como ser clara se há tanto peso nesse silêncio?
É aí que parece que eu perdi o ponto, mas sei que quero recomeçar com os amigos que mais me fazem falta nesses dias de mudanças... Vou ter de dar um jeito nessas coisas, ou então como tricotar essas amizades sem ter vontade de jogar fora as agulhas e procurar outros trabalhos... Talvez escreva umas cartas, vá a alguns cafés e dê uns telefonemas pra marcar os dias dos reinícios de carreiras. Afinal, me saio bem com as palavras e atrás de uma xícara de café.
Respirar projetos, sempre. Preciso ter o que fazer, mesmo no mais completo ócio amoroso das férias do Heitor. Seja tricotar uma manta, tecer outra, fazer uma bolsa, inventar um casaco, escrever coisas no blog ou tirar umas fotos. Não posso dormir o dia todo, não posso viver só de beijos e mãos dadas.
Meu namorado é perfeito pra mim. Ele também precisa de mais coisas, viver de um só é doentio. Até impossível a um casal de tamanhas distâncias na maior parte dos dias. E passar algumas horas de um sábado sentada, na frente de um computador, procurando por formas de transpor idéias para uma lona é exatamente isso... Sou feliz por não ser somente uma namorada. Sou isso e tanto mais, eu sou mais e mais. Posso ser tudo, posso ser minhas idéias e o meu amor, posso me dedicar a coisas sérias e a fofocas entre amigos.
Banal essa constatação, mas nem tanto pra mim. Alguns sabem de como tive relacionamentos desgastantes e obsessivos. Acho que nada mais pode ser operático como já foi, comigo. Cansei de tamanhos dramas, agora minha atuação é menos teatral... Talvez as sutilezas do cinema combinem melhor comigo.
Hoje sou menos Maria Callas e mais Regina Spektor. Porque preciso de umas loucurinhas, nunca serei absolutamente normal.