Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

Mostrando postagens com marcador Estilo Indireto Livre. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estilo Indireto Livre. Mostrar todas as postagens

Perdida

Amélia, que nomezinho bem ingrato!, pensava Amélia instantes antes de perceber a tragédia do sábado. Estava no supermercado com a filha pequena, Cecília. Abismada pelo preço do feijão e irritada com as manhas da filha, Amélia considerou a origem de seu submisso nome e largou a mão da pequena Cecília.

Não mais do que o pulsar de seus corações, não mais do que suas respirações. Amélia se distraiu.

“Lili, tu...” horror e voz esganiçada “Cecília!”. Olhos castanhos imensos, boca desfigurada. Cecília sumira.

Dores de mãe, Amélia se desesperou. Será que estou sendo punida? De um jeito irônico e sei lá... “Cecília!” Porque eu não te queria, queria que tu morresses dentro de mim, me perguntava... Meu útero, como eu desejei a expulsão daquele feto! Quinze anos, a melhor da turma, precoce. Precocemente de pernas abertas, trancada no quarto. Precocemente fazendo sexo quatro vezes por semana com o namorado mais velho. Até o dia da ovulação, mas eu nem sabia! E ele sempre tirava antes... Menos naquele dia “Cecília! Cecília!”. E tu te fizeste dentro de mim e eu te odiei! Mas minha mãe te amou, “Lili!” e te deu apelido, te deu comida, fez carinho e me fez não te dar pra outra pessoa amar. Mas eu sofri, chorei e perdi. Perdi o namorado, o ano e o prestígio. Apanhei do meu pai, tanto e tanto, e tu não morreste. Maldita “Cecília!” , eu engordei tanto! Pés inchados, choro, bexiga cheia. E eu não resolvi gostar de ti. Mas eras minha filha, então... Obrigada a te amar, mãe seria. De novo, pernas abertas e dilatação, tua cabeça passou. Depois o corpo. No meu colo, sangrenta, tomaste a gordura dos meus seios. E eu não te amei quando te vi. “Cecília!” Eu não consegui me apaixonar! Mas minha mãe continuou forte, cuidou de ti. De nós. E eu te amamentei, te troquei as fraldas, e tu me chamaste de “mãe”. Ainda assim, “Lili!” eu estava distraída. Deprimida. Mas já não te odiava, “Cecília!” não te queria pelas costas. Muito quero que entendas, “Minha filha sumiu, ela tem cinco anos...” eu imaginava ser mãe de outro jeito, mais velha e casada. Não estava pronta, aos dezesseis anos, para parir! E eu cuidei de ti, sim. Sempre, meu dever! Arranjei emprego, te alimentei, te vesti, te eduquei. Minha mãe ajudou muito “Estávamos no corredor do feijão, e ela sumiu!” , mas sempre deixei claro, “Cecília!” eu sou a mãe. Deus, nunca te bati, nem perto! Sempre quieta, obediente e carinhosa. Sou eu quem não gosta de abraços e beijos babados. Não me deste motivos para irritações, “Ela é pequenina, magrinha, tem cabelo castanho...” e eu aprendi “Está com o uniforme da escolinha, é azul claro.” A conviver contigo e pensar por nós duas. Apesar da minha falta de entusiasmo, “Cecília!” eras minha filha e eu gostava de ti. Te protegi, fiz chocolate-quente... Minhas maiores raivas “Cabelo castanho, preso...” foram quando te associei à minha gordura... “O nome dela é Cecília, ou pode chamá-la de Lili.” E meus desejos assassinos, que mãe não os tem?, se limitaram a fantasias. Não quis te matar mais do que quis arrancar minha barriga... Nunca te jogaria pela janela, “Cecília!” assim como nunca pegaria uma faca para cortar meus culotes fora. Contive meus ímpetos destrutivos “Lili!” com uma tela de proteção nas janelas e uma cinta modeladora na cintura. Ah, que péssima mãe! Eu te comparo com o meu excesso de peso! E agora, Lili? Te perdi... Como é que eu vou voltar pra casa? Comprei chocolate e frango, amanhã eu ia fazer strogonoff e mousse de chocolate... Eu sei “Lili!” que não te amei tanto quanto deveria, minha filha! Mas não poderia te deixar ficar perdida por aí. Ah, é mesmo! E se eu nunca mais te achar? E se alguém te roubou? Não poderia viver com a culpa... E se te maltratam? E se te matam? “Cecília!” Não posso pensar nisso “Cadê a minha filha?” Seria uma punição...sei lá...cármica? Ai, onde está a Cecília?

Atordoada, respirava fragmentos. Sentia dores, sentia frio. O ar estava denso, era difícil de caminhar. Amélia se movimentava descontrolada, corria, voltava. Sem perceber, pobre menina, lágrimas corriam pelo rosto redondo e afogueado. Até que, no corredor dos chocolates, a pequena figura familiar se desenhou. “Ma p’tite!” uma voz rouca se fez ouvir nos corredores aflitos. Amélia se lançou em direção da fantasminha.

“Mamãe, posso levar esse chocolate?”

Foi o que a pequena pôde balbuciar antes de perder o fôlego. Amélia abraçou Cecília, embalou-a e cantarolou. Chorou ao ralhar com a menina, mas as repreensões eram tão doces que não enganariam ninguém. Encheu de beijos os cabelos, o rosto e os ombros da filha. Olhou bem para ela, a filha sorria.

Tomou-a nos braços e carregou-a no colo, pela primeira vez, como a mãe que acabara de se tornar.

Ele e Ela

No meio de toda aquela gente estava ela. Parecia impaciente, espichando o bonito pescoço e arregalando os olhos verdes para o início da rua. Mordia a boca rosada, na ponta dos pés se angustiava. Será que ele viria mesmo? Será que demoraria muito? Ela tinha comprado aquela saia, a verde-roxa, mas agora já não tinha mais tanta certeza sobre sua beleza. Quando chegaria o maldito ônibus?

Com borboletas no estômago, ele se equilibrava. O ônibus dançava, seus pensamentos não paravam. Estava considerando tudo, ponderando as palavras. Como dizer para ela? Quando pensava nela não conseguia controlar a expressão do seu rosto: sorria, ruguinhas nos olhos. E pensava muito nela, nos olhos verdes, nas sardinhas, nas mãos... Ela o fazia feliz, tornava seus dias mais coloridos. Mas havia outras coisas que ele...

Ela engasgou ante a visão do ônibus azul-verde. Olhou para o relógio, ele tinha de estar ali! Seus olhos grandes procuraram, vasculharam, voaram para dentro daquelas janelas. Sorriu, no meio daquelas pessoas enxergou os olhos castanhos e os cabelos escuros dele.

...precisava dizer a ela. O coração deu um pulo – ou o ônibus passou por um buraco na estrada - , no meio de todas as elas e os eles do ponto de ônibus, ele avistou os cabelos cor-de-cenoura e a bolsa-de-LP dela. Ela o esperava na ponta dos pés. Pôde v^-la a sorrir com os lábios e os olhos. Ele sentiu o corpo todo sorrir.

Ele desceria logo, ai... Gostaria de vê-la, de tocá-la? Ela e seus medos de estar feia e gorda foram levados por suas pernas bonitas para perto da porta.

Como poderia contar para ela, traduzir seus sentimentos para ela? A bonita ruivinha caminhava em direção à porta, ai como era bom vê-la assim, chegando perto!

Gentes desceram do veículo, gentes subiram no veículo. Mas ele e ela ficaram, extáticos, no meio de todo o mundo. Ainda bem que hoje não choveu, ela pensou ao pegar-lhe a mão. Como falar para ela e não parecer um bobalhão?, ele pensou ao chegar pertinho dos cabelos compridos dela.. Ah, como ela cheirava bem!

De mãos dadas no meio da cidade, sol claro de duas da tarde, o calor que os dois sentiam conflitava com o frio nos seus estômagos. Felizes, muito felizes. Eles viam as cores, sentiam os perfumes e a pressão das mãos. Mãos dadas.

“Então, a gente vai fazer o piquenique amanhã?” ela perguntou, ansiosa por marcar algum outro encontro logo. Se viam tão pouco, ela achava!

“Vamos, sim. Tua mãe deixou?” ele respondeu e perguntou, feliz por poder vê-la de novo tão rápido...

“Deixou. Ela gosta de ti.”

Os dois sorriram.

Ela ajeitou a saia e os cabelos com a mão livre, tomara que ele não esteja entediado.

“Essa saia ficou bem em ti. Estás bonita!” enrubesceu ele.

“Obrigada...” ela sorriu. Nada mais podia incomodar... Queria tanto que ele a achasse bonita! E ele a achara bonita! Ela se sentiu tão bem, saltitou levemente.

Ele riu a essa manifestação tão espontânea. Adorava isso nela. Apesar de ter certos receios quanto a impulsos e decisões abruptas, ela era tão encantadoramente intensa e imprevisível!

Ela se arrependeu daquele impulso por um segundo, ele vai me achar louca! Mas viu seu sorriso e se acalmou. Segurou a mão dele com mais força e dançou por dentro.

Caminhavam na cidade e viam as coisas. Falavam dos filmes e das aulas, dos cachorros e dos gatos. Não se viam desde segunda-feira: ela lera bastante naquele período e lhe escrevera várias cartas (jamais entregues); ele tivera aulas pela manhã e pela tarde, dormira no início de filmes e pensara muito nela. Ainda bem, as férias chegariam logo!

Ele queria contar pra ela como se sentia, precisava! Mas como?

Os dois, de mãos dadas, felizes e jovens.

Ele olhou para ela e percebeu uma mudança: seus cabelos pareciam menos brilhosos e seus olhos estavam mais cinzas do que verdes.

Ela estremeceu, não de emoção... Foi de frio mesmo.

Sem entender, ele olhou pro céu. Ela percebeu o sumiço das sombras deles do chão. O céu estava cinza, nuvens carregadas. Vento frio e intenso. Pingos cortantes atingiram o olho dela e, naturalmente, todos começaram a correr, procurar abrigo da tempestade próxima. Levemente assustados pelo bramido dos trovões, pelo súbito breu do céu e peso das nuvens, os dois também correram, mãos muito grudadas. Clarões de relâmpagos, pingos grossos, os dois sob o toldo de uma padaria.

Ele olhou para ela, ela ria e cruzava os braços. Ele gargalhou também enquanto ela comentou.

“Até parece que todo mundo é feito de açúcar... Fugindo da água desse jeito!”

Ele chegou mais perto dela para dar passagem a alguém quando, com o clarão de um relâmpago e o apito do interfone de um prédio próximo, finalmente soube o que sentia e como dizer.

Ela o observava, ele estava esquisito.

“O que houve? Pode me contar...”

“Tá, posso tentar... Todas as gotas dessa chuva, todas as pedrinhas no chão, todas as folhas que caem e nascem nas árvores todo dia... Tudo isso e todas as coisas do mundo são o quanto eu gosto de ti...”

“Hã?” sardinhas fulgurantes na pele pálida.

“Sabe, uma vez eu ouvi uma música... e não consigo lembrar de quem era, mas tem um pedaço da letra que ‘tá na minha cabeça...acho que é uma mulher quem canta, a música fala de pássaros...”

“Pássaros?” ela perguntou, intrigada pelo rumo das considerações dele.

“É, ela fala que os pássaros voam alto e podem cagar na tua cabeça e te assustam quando voam baixo, ou algo assim...”

“Hã? Do que estás falando?” ela perguntou, sobrancelhas de til.

“De ti.”

“O quê?”

“Bem, é assim com a chuva também. Tipo, ela vem do nada. O tempo escurece, o calor vai embora, começa a pingar e todo mundo sai correndo. Tem os relâmpagos, os trovões. A gente fica assustado, pode até ter medo ou ficar doente depois. Mas aí a gente pára e olha pro céu meio esverdeado, sente o cheiro da terra molhada e percebe como ela é bonita. É isso que eu sinto por ti.”

“O quê?” suas sardas sobre o rosto vermelho.

“Como na música, os pássaros assustam, mas quando tu olhas pra eles e vês como eles são lindos... É isso que eu sinto por ti.”

Ele respirou e ela sorriu.

“Eu queria dizer... Eu gosto de ti.”

O coração dela bateu tão forte que, para disfarçar, ela fez uma piada sem graça.

“Obrigada” chegou bem perto dele, rosada como um morango “Eu também gosto de ti.”.

Essência das essências foi o beijo deles.



[Para ler ouvindo "Birds", da Kate Nash]

A Aliança de Noivado

No início de dezembro Ester decidiu que seria pedida em casamento... e em breve,pois acreditava que as festas de fim de ano trariam ótimos agouros a um compromisso mais sério. Além disso, seria a época perfeita para uma pequena celebração,só para as famílias e aqueles amigos mais próximos...todos já estariam na cidade de qualquer forma para as tradicionais celebrações de Natal e Ano Novo. O casamento só aconteceria anos a frente, óbvio,já que os dois estavam no primeiro ano da universidade e,além de todas as dificuldades enfrentas de ordinário por um casal, ainda viviam em cidades diferentes. Mas o noivado aconteceria, sim, claro! Ela o amava com todas as forças,pensava nele o tempo todo e sofria com atrozes saudades durante a maior parte do ano. E ele a amava também,e muito,do seu jeito menos explosivo,mais contido e muito profundo...nem todos são tempestuosos como Ester! E, se Vicente fosse assim, o relacionamento estaria condenado aos sete meses de limite entre dois iguais.
Ela o esperou voltar pra casa com mil idéias e planos, estratégias amorosas para convencer Vicente a ter a brihante idéia de oferecer a ela, sua amada namorada de anos e distâncias, uma aliança de noivado. Passearia com ele na frente de joalherias, apontaria a vários anéis e diria preferir aquelas alianças de ouro, tão lindas e que, olha só!, ficam tão bonitas na sua mão! Pesquisaria, irritante e insistentemente, sobre o assunto na Internet... A história das cerimônias de noivado, em que mão usar as alianças, que tipo de material escolher, modelos, preços e parcelamento, gravação dos nomes e data, tamanho dos dedos, significados e significantes. Faria planos em voz alta, diria todas as suas fantasias de pombinha enamorada, perderia o medo de ser mal compreendida...afinal, ele a amava ou o quê? Então, nada mais natural do que um pedido, mil beijos, mil planos... Isso adoçaria a distância e daria a todos a medida certa do relacionamento. Afinal, eles não eram um casalzinho qualquer, que se ama pra sempre durante umas semanas e, logo a seguir, termina tudo por causa de alguém novo, ou porque quer voltar a ficar com todas. Apesar de todas as previsões pessimistas dos amigos, Ester e Vicente já haviam superado dois anos morando longe. Isso já era maior do que a soma de todos os relacionamentos dos seus grupos de amizade. Apesar de todos os encorajamentos a terminar logo, todos os conselhos a parar de sofrer e de se iludir, todos os prognósticos negativos de quem deveria consolar, os dois permaneciam juntos, sempre, cada vez mais apaixonados e felizes. Enquanto as inseguranças enfraqueciam, a certeza de continuarem juntos fortalecia, mesmo que fosse muito difícil e triste o tempo passado em tal cruel separação geográfica... Por que ele não pediria?
Ele chegou... Depois do enlevo dos primeiros dias, de muitos carinhos e nenhuma preocupação outra que beijá-lo e abrir-lhe deliciosamente as pernas, Ester começou com suas sutilezas. Enquanto ele passava devotava atenção e carinho aos saudosos pais na sala, ela via alianças em lojas virtuais no quarto. Quando ele entrava no quarto, ela mostrava suas preferidas e perguntava o que ele achava. Quando andavam pela cidade, ela mostrava alianças o tempo todo. Assistindo a filmes? Olha só que legal a aliança dela! Entrando numa banca de revistas? Como estão lindos os modelos de aliança dessa revista de noivas! Iam a uma livraria? Nossa, quantos livros sobre casamento!
Quando viam amigos, ela sempre comentava, em meia-voz, sobre a efemeridade de seus namoros. Agigantava seu relacionamento e tentava de todas as formas fazer com que ele percebesse, seria tão difícil?, que seu relacionamento era muito mais do que um namoro de adolescentes! Queria que ele visse como eram imensos seus sentimentos, maiores que todos! E que o noivado só corroboraria o já existente entre eles... As alianças seriam somente o ícone, o símbolo... Afinal, vivemos ou não em um mundo primordialmente simbolizado? Não, Ester não se precipitava! Ester respirava Vicente, Ester vivia Vicente o tempo inteiro! Ester o amava mais do que amava a si mesma. Decidira colocá-lo em primeiro lugar em relação a tudo e nunca pedira nada em troca. Durante os malditos dias de indecisão de Vicente, logo antes de deixar a cidade, quando ele não sabia se queria ou não romper o relacionamento, Ester se manteve firme. Chorosa, mas firme. Mesmo quando ele admitia amá-la menos do que ela o amava, Ester procurou compreender e não se desesperou. Ela sempre soube. Sempre sempre sempre! Eles ficariam juntos, como não? Era pra ser dessa forma e não de outra. Ele demorou quase dois anos pra perceber o que estava pintado em todos os muros, o que era cantado em todas as canções: Ester era sua mulher! Ester, só Ester! Ela viu logo,mas tinha medo de dizer. Esperava por ele, temeu que ele nunca enxergasse o óbvio... Mas ele viu. Ninguém sabe como. Mas como não ver? Ela merecia ser uma noiva, não a namoradinha. Queria que todos soubessem ser ela a futura esposa. Sim, dá certo. Tão certo que se casariam. Tão certo...
Ela sentia que ele tentaria enganá-la, desviá-la... Fazer com que ela se desiludisse, não esperasse mais pela proposta. Afinal, ele sabia o tamanho de seu anular direito... Queria crer que ele tentaria surpreendê-la. E isso seria tão adorável! Ester, enlanguescida, o questionava sobre seu presente de Natal. Dava mil sugestões, indiretas, diretas, muxoxos e pequenas armadilhas apaixonadas. Fazia caras mimosas, sorria de maneira adorável, choramingava e fazia beicinho. Fingia de indiferente, dizia querer ganhar o que quer que ele desse. Dissimulava. Olhares oblíquos. Não tocava no assunto. Tudo de verdade. Emoções contraditórias eram perfeitamente normais em uma mulher-menina-mantícora. Mas Ester acreditava no amor de Vicente e nessa prova suprema, mística, mítica, romântica, o melhor presente do mundo é uma vida inteira com ele! Ele havia de pedi-la, sim, claro!
Mas Vicente desconversava, olhava pra outro lado, se entediava. Saía, sorria, andava. Tentava evitar o tópico onipresente. Parecia achar precipitado. Dizia-lhe que um dia ela teria uma aliança de ouro amarelo. Jurava e repisava todas as promessas de vida e amor infinitos. Prometia-lhe fidelidade, sim, lealdade, sim, uma casa bonita com filhos eventuais e uma cadela labrador. Ele a deixaria ter uma gata, uma cabra e uma macieira. Também todos os livros. Cafeteira. Decoração. Uma vida saudável e muito feliz. Não é isso o que realmente importa?
Diante de todas essas demonstrações de amor, Ester se sentia ridícula por querer uma aliança e um título idiota, mas logo raciocinava... Se ele a ama tanto assim e realmente quer toda essa vida de cerquinha branca, então faz sentido que ele a peça em casamento! É maduro e razoável... é o que ela mais quero no mundo e o que vai fazê-la mais feliz na história do universo! Depois de minutos de desconfiança, rapidamente Ester recobrava o ânimo e a esperança. Sabia de seu amor. Ele a pediria no Natal!
Muito confiante, ela insinuou que queria flores – ele nunca lhe dera flores! – e bombons – um pedido tradicional requer também chocolates – junto ao pedido. Quase segura de si, ela quase disse qual a aliança perfeita. Só pra ter certeza, ela fez com que ele se lembrasse do tamanho do seu dedo – É o número doze, ou o tamanho do teu mindinho!
Dias de doce enlevo embalaram os dois. Apaixonados como nunca, planejavam o futuro, passeavam, ficavam a re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-re-redescobrir-se os corpos, vultos insinuados entre os lençóis e as águas da piscina, gozos fervorosos e muitas porras jogadas fora dentro dos recipientes vulcanizados dentro das embalagens, beijinhos e abraços, pequenas declarações de amor.
Então chegou o Natal. Presentes bonitos e queridos abraços, muitas calorias ingeridas em fartas mesas. Celebrações. Feriado.
Ester estava indócil.
Vicente estava satisfeito. Feliz consigo mesmo, ela iria adorar o presente! Resolveu entregar-lhe antes da ceia... Então agora. Chegou-se a ela, o embrulho era enorme!, ela riu-se contrafeita, mas por que tanto?, ele beijou-lhe a fronte, mas por que tremes?, ela pegou o embrulho, é pra mim?, ele fez uma careta, pra quem mais seria?, ela olhou o papel verde, é pra abrir agora?, ele deu de ombros, só se tu quiseres... , ela olhou ao redor, então abro, ele beijou-lhe os lábios, Feliz Natal!, ela sorriu, Feliz Natal.
Suas mãozinhas brancas mergulharam no embrulho verde ouro. Não sabia mais o que era embrulho e o que era mão. Encheu o papel de vida e a vida de celulose. Como não conseguisse desprender a fita adesiva, rasgou. Seus olhos, ávidos, encheram-se de água. O mundo dançou, oscilou. Um universo submarino. Peixes com feições humanas no meio do turbilhão. Tudo era verde. Nada era vivo. O papel se rasgou e revelou papel manteiga. Um cheiro conhecido entrou em seu cérebro, Ester lembrou da loja de seu avô. Atropelando-se, jogou o papel manteiga pra longe e viu... Uma grande bolsa de couro marrom cheia de tachinhas dourovelhadas. Adorara essa bolsa! Era tudo do que pudera falar durante meses. Ela agora só poderia ser um pretexto, um outro embrulho, um disfarce pro presente de verdade. Sem entender direito, sem fazer muito sentido, Ester abriu a bolsa. Encontrou um saco plástico cheio de ar. Regurgitando-se, estourou o saco e enfiou a alma dentro da linda bolsa, procurava pelo amor dentro de uma caixinha de veludo. Abriu e fechou os lábios, vasculhou as memórias, Se eu fosse uma aliança de noivado brincando de esconder dentro de uma bolsa de couro das lojas Marisas aonde eu estaria agora? Ah, Deus, qual a cor do veludo? Cadê, meu amor, cadê? Bolsa de cabeça pra baixo, leve insanidade na risada dos bolsos abertos... Mas tu não me amaaaaaas?????
Ester não encontrou uma caixinha de veludo dentro da bolsa. No auge do desespero, não percebeu que algo caíra. Ela desmaiou, febril. Engasgou uns solfejos e parou de pensar, logo parou de existir. Se apagou a chama tão logo o ar cessou.
E o que tinha dentro da bolsa?
Uma trufa de chocolate com recheio de café.
E dentro da trufa?
Uma aliança de ouro amarelo com um filete de ouro branco, dezoito quilates, com nome gravado e data marcada.

Insomnie

Em uma manhã cinzenta, Grete acordou oprimida pelo peso dos cobertores sobre seu franzino corpo. Olhou pro lado, já devia ser tarde... Aquela sensação peculiar que tinha na cabeça, como se tivesse ficado leve, quando acordava atrasada... Mas não pode mexer o pescoço. Pensou em levar a mão até o rosto para afastar a franja dos olhos, mas não pôde lutar contra o peso do seu corpo. Mas por que tantas cobertas sobre ela? Não estava frio... Aliás, Grete sentia muito calor, suava até. Precisava descobrir o corpo, respirar. Por que não conseguia se mexer?

Ouviu um soluço abafado, por que sua mãe chorava? Tentou abrir a boca e articular palavras, mas nada parecia acontecer. Grete, assustada, tentou gritar. Seria uma daquelas situações em que não estava adormecida nem acordada, quando parecia absolutamente imóvel, entretanto semi-consciente, e simplesmente mexer um dedo lhe traria de volta ao mundo real? Concentrou todas as suas forças em mexer o dedo anelar direito. Podia sentir a leve pressão da aliança de noivado ao tentar mover o fino dedo de pianista, mas nada acontecia. Impaciência começou a aflorar na menina, mais soluços abafados...

O que estava acontecendo? Ela não conseguia mexer o dedo, não conseguia sequer suspirar... Essas experiências semi-oníricas nunca duravam tanto tempo, disso ela sabia. Desde menina Grete ficava presa entre o sonho e a vida, às vezes metaforicamente, às vezes não. No início, a menina, encantada pelo sobrenatural, se divertia com esses breves momentos incorpóreos. Conforme os anos passavam, a já não tão encantada jovem passou a temer essas situações. Ouvia gritos, tinha medo de morrer.

Grete concentrou-se, dessa vez iria mexer o dedo. Não conseguia enxergar nada, nem entrever as coisas. Continuava a escutar o choro da mãe, mas por que chorava? Novamente, o dedo não se moveu. Agora, Grete sentia a pressão da aliança crescer.

As cobertas pareciam mais pesadas, tão pesadas que a jovem não conseguia mais respirar direito. Sentia-se ofegante, exausta... Mas como? Dormira bem, como nunca dormira... Nenhum sonho a incomodou dessa vez, foi um simples vazio. Só assim ela podia, de fato, descansar.

Entretanto, como Grete já percebera, ela já não descansava mais. Longe disso, a moça estava banhada em suor e mal respirava... Tamanho era o esforço para mexer o dedo anelar direito. E o choro crescia, por que sua mãe gritava tanto?

Será que ela bebera na noite anterior? Será que essa seria uma daquelas horríveis manhãs de ressaca? Realmente, sempre que Grete exagerava, tinha dificuldades para acordar na manhã seguinte... E essa hipótese explicaria a ânsia de vômito que crescia nas entranhas da jovem ruiva.

Mas não explicava o pranto da mãe.

Depois de, ofegantemente, chegar a essa hipótese, Grete parou de respirar por alguns instantes. Durante esse lapso, o cérebro pouco oxigenado se iluminou. Em seguida, Grete começou a tremer.

Sua mãe gritou.

Uma vida inteira mal-dormida, uma vida inteira de olhos abertos. Soluços secos, olhos grandes, garganta áspera. Uma vida de choro contido em travesseiros, brigas explosivas e desamor. Mas ela amou, sim, e como! Mil beijos, mil abraços, mil sexos. E o príncipe encantado abriu a mão para lhe entregar a aliança de noivado perfeita! Data marcada, convites em papel cor de laranja. Ainda assim, lágrimas mudas no travesseiro depois do dia de amor e fanfarras... Mal-dormida, olhos abertos, garganta áspera. Brigas com o noivo querido, choro alto de manhã, nada de sono à noite. Pensamentos afloraram, hipóteses se desenharam. Seu amor a apoiou sempre, levando-a a médicos caros e terapias bizarras. Ele a apoiou, como ele a amou. Mas, à noite, sonhos acordados no pesadelo do não-dormir, ouvindo-o ressonar e roncar e sonhar com ela ao seu lado, ela estava enlouquecendo. Temia os remédios, dependências. Tomá-los e dormir e pará-los e viver insone depois. Pensou no futuro, marido, filhos, cachorro. E tudo, tudo seria pela metade. Porque nunca poderia adormecer. Péssima esposa, péssima mãe, péssima dona. Ela já era péssima noiva, péssima filha. Quis dormir, dormir de uma vez por todas, ressonar e sonhar. Sonharia com um futuro ao lado dele, beijando-o, abraçando-o, deixando-o dentro de si para sempre. Amor, amor. Ela não poderia destruir esse amor. Tudo se perderia se ela não pudesse dormir. Doutor caro e egocêntrico, eu tenho problemas com minha família e não consigo mais dormir. Por favor, me dá remédios, amanhã é o meu casamento e eu não quero entrar na igreja com olheiras. Farmácia, receita, dinheiro, liberdade. Finalmente, dormir e dormir! A menina ruiva beijou o noivo e foi passar a noite na casa da mãe. Seu pequeno quarto rosa de criança, colcha de retalhos da tia-avó, travesseiro de penas de ganso. Jantou com a mãe, gritinhos e risos. Subiu com uma xícara de chá de capim-limão e um olhar carinhoso de sua mãe. Provou o vestido de noiva e chorou algumas lágrimas, pensou nele e em como o queria protegido. Pijama escolhido: camisola cheia de babados. Banho quente, shampoo de lavanda. Pantufas de coelhinho. À beira da cama, paz antecipada, frascos esvaziados na garganta rosada da ruivinha. Quentinha na cama, chá de cidreira, o amor é tanto, tanto! Dieu réunit ceux qui s’aiment, sono, sono. Paz, paz, paz...