Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

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A Sintaxe das Coisas

Em épocas de Feira do Livro e de reformas gramaticais, eu me pego em humores morfológicos e vejo a sintaxe das coisas. É uma dança lingüística na minha cabeça, e pode parecer realmente enfadonho a pessoas não interessadas por tais temáticas.

Não vou me prolongar em tecnicidades – até porque não me garanto nessas argumentações - , entretanto não posso deixar de escrever sobre alguns fatos.

Primeiro: A reforma da língua... Um tratado de uniformidade entre os países lusófonos me faz sentir desconfortável. Não concordo com esse tipo de homogeneidade lingüística, acredito que, quanto mais rica a língua materna da pessoa, mais criativa ela pode ser – por isso americanos são levemente lerdos. Podem jogar pedras e dizer que não é nada de mais essa reforma, que só perdemos o trema e mudamos a regra do hífen, porém meu medo se fundamenta nas futuras reorganizações de língua (quem leu 1984 entende minhas crises de pânico), em uma supressão de palavras para que não se saiba pensar e sentir daquele jeito... Seríamos mais burros, mais insensíveis, mais fáceis de dominar e controlar (imaginem não conhecer, por exemplo, a palavra “amor”? É um exemplo meio cafona, reconheço, mas se não podemos pensar o sentimento, se não encontramos meios de expressá-lo com palavras, é só uma questão de tempo até que nos esqueçamos dele – não a princípio, mas em futuras gerações). Além disso, se o que se busca é uma “língua única”, é uma questão de tempo até que se resolva banir dialetos e expressões regionais – afinal, não se fala em Pelotas o mesmo português de Maceió. Obviamente isso tudo se resume à língua escrita, mas mesmo assim... Li Saramago grafado em Português de Portugal a vida toda e nunca deixei de entender... Não é o C de objecto que me impede de entender o que ele está a querer expressar. Essas pequenas diferenças não criam barreiras ao entendimento e, aos que gostam de dizer que a língua que se fala no Brasil não é a mesma de Portugal, dêem uma pesquisada no que configura, de fato, a definição de Língua. Isso vai esclarecer algumas dúvidas que eu, mera entusiasta, não poderei tirar.

Segundo: ganhei um livro do meu queridíssimo namorado: A Jangada de Pedra do “Zé” Saramago. Esse português velhão que anda na moda por causa da versão cinematográfica de um dos seus livros mais famosos consegue, desde a primeira frase, me deixar absorta em comunhão com seu discurso. Sempre protelei a leitura de seus livros, tinha preconceito por seu prêmio Nobel e essa palavra é oxítona e por toda a mitificação de suas personagens e seus enredos. Em uma das greves do meu Ensino Médio acabei por retirar de uma biblioteca a sua História do Cerco de Lisboa e o velho me ganhou. Sobre esse livro, o meu favorito entre todos os livros, vou escrever uma ode um dia, quando ele cair nos meus braços como presente. Enfim, Saramago é meu escritor predileto desde as primeiras vírgulas. Ficava pensando, por que gosto tanto dele, não é nada de extático aos outros... Percebi uma das razões, estava na cara desde o início, suas linhas de raciocínio se enveredam por caminhos aparentemente ilógicos e voltam, resplandecentes, ao ponto onde devem chegar. E disso eu entendo... E ele usa as palavras de um jeito tão... Ah, não consigo explicar, só posso me sentir aliviada por tê-lo lido em Português, língua materna de nós dois (e de todos os meus leitores aos quais eu indico a leitura dos livros do Zé... Não é fácil, mas recompensa)... Imaginem quanto dele se perde na tradução? Enfim, fiquei feliz com meu livro novo e já comecei sua leitura.

Terceiro: Somos excluídos digitais aqui no quarto do Heitor (a internet wireless da casa não chega aqui por causa das paredes – e do desktop e dos outros dois laptops mais bem localizados), e isso dificulta um pouco a comunicação com outras pessoas. Além disso, estou com o meu namorado querido – por isso nem me esforço mesmo.

Feira do Livro ainda existirá depois de terça e eu prometo passear com todos, estou com saudades.

Beijos a todos,

Iarima Redü meu nome não vai perder a carinha feliz!!!

Para Aline, mais um presente

Hoje a Aline e eu conversamos por horas. Ela falou uma coisa que me lembrou esse trecho do Grande Sertão: Veredas. Aqui vai, pra ti, outro presentinho literário:

"Hem? Hem? O que mais penso, texto e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue (...) Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca."

Bem, como nós não somos religiosas, só com rezas de outros pra “desdoidarmos” um pouquinho.

E saiba que, se eu rezasse, tu estarias nas minhas orações. Também peço de aniversário vários outros encontros contigo, que envolvam ou não lãs e cafés melados, aparecimentos involuntários em propagandas do PSol e pingos esparsos em tarde fria.

Orgulhosamente apresento: os livros que eu NÃO li!!!

Hoje, depois do jantar e durante o espresso digestivo, eu estava a folhear a edição de agosto da revista Superinteressante. Lá, bem no início, eu me deparei com Pierre Bayard, um psicanalista e professor de Literatura francês. Ele fala sobre a não-leitura dos livros. Assim, para ele uma pessoa não precisa ter lido os clássicos da literatura da primeira a última palavra para ser culta – essa seria apenas uma forma de se ler o livro. Mais interessante, segundo Bayard, é ser capaz de correlacionar as obras e seus autores com o contexto literário, não necessariamente ler os livros todos do início ao fim. Ele fala que existe uma pressão tão grande para que leiamos muito, leiamos tudo, que acabamos com medo e preguiça de ler. Temos vergonha dos livros que não lemos e muitas vezes mentimos. Quem tiver a oportunidade de ler essa entrevista na Super, o faça. Se quiser, também, ou só a folheie. Essa também é uma forma de leitura, sabiam? Até só ouvir falar do livro já é um contato... Quem sabe eu falo mais sobre essa matéria amanhã, mas agora quero falar de minhas não-leituras e desleituras – desleituras são os livros que lemos e acabamos esquecendo...

Por exemplo, entre muitos outros, eu não li:

· Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa

· Ulysses – James Joyce

· As Ondas – Virginia Woolf

· As Palavras e as Coisas – Michel Foucault

· Quase a Mesma Coisa – Umberto Eco

· Os Lusíadas – Camões

· Os Irmãos Karamazov – Dostoyewsky

· A Caverna – José Saramago

· Jangada de Pedra – José Saramago;

· Como Falar dos Livros que Não Lemos? – Pierre Bayard

Eu esqueci de várias partes de vários livros, mas os que mais me intrigam são:

· Crime e Castigo – Dostoyewsky

· Anna Karenina – Tolstoy

· O Dia do Curinga – Jostein Gaarder

· Madame Bovary – Gustave Flaubert

· O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco

· Esqueci dos outros...

Antes que eu comece outra lista, vou assistir de novo ao segundo episódio de Pushing Daisies.

Au revoir!

Letícia

Passeando entre prédios antigos e árvores verdes, uma menina de roxo parecia adormecida. Suas botas escuras pisavam de leve o chão, apenas o suficiente para a gravidade cumprir suas leis e não deixar a garota flutuar.
Seus olhos, castanhos e sonolentamente brilhantes, não passavam de olhos. A menina os usava como todos usam. Eles lhe mostravam o mundo. Com eles, a jovem de longos cabelos negros enxergava o sol, o céu, os prédios, as árvores, as coisas. Mas o que ela gostava, mesmo, era de virá-los para as pessoas. Todas as pessoas: as bonitas e as feias, as brilhantes e as patéticas. E ela olhava-as com fome, fome de detalhes, expressões, trejeitos, sorrisos, passos, conversas. Vasculhava tudo o que podia ver e inventava o resto.
A jovem de roxo, então, chegou ao seu destino: um café com grandes janelas. Inefável, sentou-se e quis um chá de ervas. Precisava ocupar suas mãos. Mãos bonitas, unhas pintadas, mãos como quaisquer outras.
Na pequena eternidade entre o pedido e a entrega, a jovem usou seus olhos e sua mente. Através da janelona, via os passantes. Cada uma daquelas pessoas era um universo inteiro! Enxergava um homem velho e barrigudo, de olhos muito verdes e ruguinhas nos cantos da boca. Ela percebeu que ele caminhava com passos curtos e rápidos e olhava para baixo. Sua expressão - maquinou a menina, parecia triste e desesperançosa. Teria aquele senhor sido um jovem belo e galanteador? Sim, ela decidiu, ele fora um rapaz bonito e romântico, apaixonara-se um milhão de vezes e tivera as mulheres aos seus pés. Que juventude! Quantos risos, quantos beijos! Entretanto, pobre homem, Ele não soubera envelhecer. Quando os anos chegaram, as mulheres rarearam e as gorduras cresceram, o charmoso galã se tornou um velho amargo, ressentido e carrancudo... O senhor, ao chegar à esquina, esbarrou em um grupo de adolescentes coradas. Ele esbravejou e saiu da visão da menina do Café. Agora, os olhos dela observavam o grupo de adolescentes. Todas muito iguais, cabelos louros, barrigas de fora, calças de ginástica. Exceto uma, a mais loura. Enquanto as outras riam e falavam, ela também ria. Mas seu olhar parecia tão distante. Quando todas assumiam expressões acéfalas no silêncio, ela parecia pensar. Ponderaria sobre sua vida? Sim, ela era diferente das outras. Mas por quê? Sempre quisera ser igual a todas, ter amigos e um namorado bonito... Enquanto as meninas devoravam, se, piedade, um pacote de bolachas recheadas de chocolate, a menina louríssima as escondia, furtiva, na bolsa. Não comera nenhuma. Sua magreza gritava, ossos dos quadris à mostra e braços finíssimos. Ela não tivera escolha, percebeu a jovem de cabelos negros, precisara parar de comer para se incluir. Para que pudesse se sentir querida e feliz. As garotas iguais entraram em uma loja e foram observadas por um rapaz de cabelos longos. Ele, ladrão da atenção da menina de roxo, tinha o rosto bonito e descontraído. Seus olhos pretos e seus lábios finos sorriam enquanto seus braços carregavam um buquê de flores muito roxas. Esse, sim, parecia feliz. Apaixonara-se pela primeira vez e era correspondido. Sorria para as antecipações do encontro com a namorada e para as lembranças das conversas de ontem. As flores gritantemente violetas a agradariam. Ela era a melhor coisa que acontecera na sua vida, e ele quase duvidava de tanta sorte. Correu ao atravessar a rua e entrou no Café onde a garota de olhos sonolentos ainda esperava pelo chá. Ela, embalada por seus delírios, tentou cumprimentar o rapaz do buquê de flores, mas ele a ignorou.
Os olhos dela se viraram para a mesa, para o teto e para o balcão. Subitamente, todos os detalhes que sorvera daquelas pessoas pareceram inúteis. Tudo pareceu mortalmente vão e sem significado. Aquelas pessoas, cujas vidas se cruzaram por breves instantes, eram todas tão invulneravelmente solitárias! Presas em si mesmas, pensando sempre nas mesmas coisas, lidando com as suas rotinas. Todos sozinhos, toda humanidade consistia nesses fragmentos! Vivendo vidas inteiras, plenas de significados, vidas não notadas. Em silêncio. Ilhas, muitas ilhas! A jovem sentia frio... Como unir as pessoas, se todas são universos? Nada poderiam ter em comum, se todos são irremediavelmente únicos!
E ela não entendia o que fazer com tantos detalhes que olhava tantas particularidades... Pra que servia isso? As pessoas solitárias e cheias de cores, indescritíveis cores e vidas. Ela precisava de um modo, de um jeito de mostrar à esses universos toda a beleza que se encerra em cada relance de seus dias.
Mas como poderia ela, uma simples menina de roxo, fazer isso?
Seus devaneios foram interrompidos pela chegada do pedido. Uma mulher de meia-idade, uniforme muito rosa, antipaticamente dispôs a xícara de cerâmica com a aromática bebida, um açucareiro de metal e uma colher na mesa da jovem de cabelos negros. Largou a conta e deu as costas à moça, resmungando qualquer impropério.
Novamente perdida em considerações, a jovem deixou suas bonitas mãos alçarem a xícara de chá. Acompanhando o tumulto da mente, os dedos da menina tremiam e oscilavam.
Ela respirou profundamente, seus olhos estavam pastando em uma árvore. O mundo todo se tornou etéreo por um instante, a gravidade pareceu uma invenção maluca quando a garota sentiu sua xícara flutuar. Abismada, ela olhou para suas mãos. A xícara, que habitou ali por alguns minutos trêmulos, caía. Lentamente, durante uma imensidão absurda de tempo, o chá deixou o recipiente delicado e foi se espalhar no chão, molhar as botas da menina. Ela viu, quadro a quadro, a xícara dançar, virar, dar cambalhotas no ar, até o trágico momento da desintegração, dos estilhaços de porcelanas por todos os lados quando a gravidade ela alcançou.
O barulho de porcelana se quebrando demorou a ser assimilado pela menina, enquanto ela jogava as mãos aos cacos. Quis reuni-los, já que não podia colas as pessoas...
Quando ela olhou para a mão direita e notou o corte.
E o sangue, muito vermelho, aflorando na palma da mão.
Então, aconteceu. Seus olhos perscrutadores viram suas mãos cheias de cor. Sua mente lembrou de todas aquelas pessoas, dos olhos muito verdes do senhor barrigudo e dos cabelos muito amarelos da moça anorexia, das flores muito roxas do jovem cabeludo, do uniforme muito rosa da mulher antipática. Seus detalhes, verdadeiros ou imaginados, não passariam despercebidos. Ela os enxergaria, os inventaria, os ouviria. Ela tentaria decifra-los e recodifica-los em palavras... E as palavras, apesar de pobres em vista das cores, não seriam sua única ferramenta. Ela os desenharia, encheria de cores inventadas e inusitadas suas reminiscências. Seus olhos os devorariam, sua mente os recriaria e suas mãos os eternizariam com os detalhes de breves momentos, fotografias rápidas de vidas inteiras.
Afinal, podia ver claramente agora: ela sempre fora uma escritora. Uma artista. Uma aspirante a construtora de pontes entre arquipélagos.

O Livro Perdido

Não posso me esquecer da primeira vez que me leram. Mãos ávidas me reviraram, fizeram-me voltar e adiantar. Lembro bem, foi uma moça de uns quinze anos. Tinha as unhas pintadas de escuro e os olhos claros vidrados nas minhas palavras. Confesso, meio a contragosto, não acreditava que fossem amar a história que fui feito para contar. Eu mesmo a achava monótona, prolixa, inconsistente. Personagens impossíveis, diálogos super-elaborados.
Mas a menina me amou. Sorveu-me, letra a letra. Os olhos encheram-se de lágrimas, o rosto arredondado e pálido ficou marcado do preto da maquiagem. A boca riu, também, e as mãos tremeram várias vezes. A menina me carregava consigo para todo lugar que ia: na escola, me discutia com os colegas; nos jardins, relia trechos e suspirava para as flores; no cinema, me tirava da bolsa enquanto o filme não começava; no ponto de ônibus, adorava folhear-me e, dentro do ônibus, perdia a parada. Ela me amou, ela amou a história que eu contei.
Mas logo me acabou. E, na última página, senti medo de ser fechado para sempre. Ela foi bondosa, deu-se alguns instantes para simplesmente contemplar-me. Novamente folheou-me, cheirou-me, abraçou-me e acariciou-me a capa.
Fui guardado na mochila naquela noite. Lá, ao lado de outros livros e cadernos, fiquei triste. E se aquela moça era abençoada? E se só ela pudesse me amar e compreender? Afinal, esse autor gostava de uma historinha rebuscada, hein?
No dia seguinte, a menina me tirou da sua mochila. Pelo sol, a manhã ia em meio. Suas mãos me deixaram no balcão da biblioteca, ela ria ao conversar com os amigos de escola. Ela me comentava, me indicava aos amigos, dizia que eu era maravilhoso. Enchi-me de esperança, mas também fiquei triste. Ela me deixaria para sempre... Suas mãozinhas, seus olhos claros. Suas emoções não mais justificariam a minha existência. E se os próximos leitores me maltratassem? Não me entendessem? Ou pior, só lessem as minhas orelhas e resolvessem que já me tivessem decifrado?
Não havia nada que pudesse fazer. Cabe ao livro contar outra história, nunca a sua. Pelas suas páginas passam os sentimentos, emoções e dúvidas de personagens alheias a si. Ele dá voz a outros, o discurso que profere nada tem a ver consigo. Nada tem a ver comigo. E suas mãos me entregaram às mãos da moça da biblioteca, mãos calejadas cujas unhas, curtas, eram pintadas de roxo. A bibliotecária abriu-me, passou um instrumento em mim, o tal instrumento fez um agudo “Bip” e senti a minha primeira leitora me deixar.
A bibliotecária estava prestes a me largar na estante quando voltou. Novamente me abriu e passou o mesmo instrumento em mim. Falou algumas coisas a um rapaz, ele tomou-me em suas mãos pequenas e me colocou em sua mochila. Julguei reconhecer a voz dele ao se despedir da bibliotecária, pensei ser um dos amigos da minha primeira leitora.
Passei uns dois dias fechado em sua mochila, só via a luz do dia quando o menino tirava os cadernos e estojos... Certamente fazia as lições de casa, não tinha tempo para ler-me. Mas então, por que me retirara da biblioteca? Quando comecei a pensar em grudar as minhas páginas e impedir a leitura do jovem, ele abriu a mochila de novo. Se eu tivesse um coração pulsante, ele me denunciaria... Mas não precisei plagiar Allan Poe, o menino abrira a mochila para buscar-me.
Parecia impossível! Teria dois leitores em menos de uma semana? Será que o meu texto era assim interessante? Esse menino de mãos pequenas me folheou desinteressadamente, leu-me as orelhas com um ar de desdém, leu algumas palavras aleatórias na minha última página e atirou-me à cômoda. Senti-me ultrajado! Meu texto podia ser prolixo e mal construído, mas ele não descobriria esses defeitos com tamanha má-vontade ao folhear-me! O menino de olhos escuros, expressão sarcástica e cabelos cheios de gel não se deu ao trabalho sequer de ler meu prefácio! Como poderia desdenhar-me sem nem tentar conhecer-me? Odiei seu quarto, o cheiro estranho de sua casa, seus livros idiotas de jogos de interpretação de papéis e bobagens do tipo. Quis que seu gel acabasse quando fosse se arrumar para ver a namorada, quis que seu nariz quebrado infeccionasse e ele não pudesse respirar! Se ele mostrou tamanho desrespeito por mim, como tratará as pessoas ao seu redor? Um menininho inferior, diria, se perguntassem minha opinião. Espírito baixo.
Tão diferente da menina que me tivera antes... Tão cuidadosa, tão interessada!
E ele me deixou sobre a escrivaninha por dias, na época de retornar à biblioteca já sentia uma camada de pó em cima da minha capa. Em uma manhã chuvosa, o jovem tomou-me nas mãos e atirou-me, de qualquer jeito, sem qualquer consideração pelos meus sentimentos!, ao interior da sua mochila escura. Lá dentro encontrei os chatos livros de jogos e me aborreci. Queria desesperadamente voltar à biblioteca, talvez algum leitor melhor me pegasse para ler...
Vi a luz de novo quando ele abriu a mochila. Junto com a luz, ouvi umas vozes familiares e adivinhei a biblioteca da escola. As mãos pequenas do leitor obtuso me deixaram no balcão e se foram. Se tivesse boca e olhos, meu semblante estaria sorridente. Abriram-me, passaram o aparelhinho em mim e me levaram de volta à minha estante. Foi um alívio inominável, só então percebi o quanto o leitor inconseqüente era falador! Não calava nunca a boca, e o problema maior era não ter nada de útil para dizer.
Minha estante era a quinta de cinco, ficava no meio de três fileiras. Logo, eu podia ver os jardins da escola todos os dias. Sentia a luz e o calor do sol diretamente sobre minha lombada, minhas páginas sofriam um pouco com a umidade do inverno. Ouvia a algazarra das 10 da manhã e do meio dia... A tarde era sempre agitada, especialmente à uma, às quinze pras quatro e às seis. Nesses intervalos, havia filas na biblioteca. Eu nunca sabia se queria ser retirado ou não. Certamente a menina dos olhos pintados freqüentava a biblioteca sempre. Tal interesse, tal empolgação deviam ser fruto de constante leitura. Se pudesse suspirar, eu suspiraria... Sentia-me frustrado, meu objetivo na vida é contar uma história... Mas tinha medo de ser desdenhado novamente. E, nesses intervalos, minutos de correria, as bibliotecárias vinham às estantes e conferiam os números nas nossas lombadas com os números que tinham anotados em pedacinhos de papel. Tiravam livros, traziam livros... Eu suaria, se pudesse, com tanta angústia e ansiedade. Passos apressados, iriam os olhos das mulheres daquela biblioteca escolar se fixar nos números da minha lombada? Suas mãos me retirariam do ostracismo? Algum jovem descolaria minhas páginas? Durante as noites, adoraria ser retirado. Fazia frio naquela biblioteca e, às dez horas, as bibliotecárias fechavam as cortinas, apagavam as luzes e todos os barulhos familiares cessavam. Queria, sim, ser lido.
Mas ainda tive de esperar um tempo até que fosse escolhido por alguém. Mas fui escolhido, ao menos. Em uma manhã preguiçosa, em um horário diferente das algazarras, a bibliotecária veio. Ouvi seus passos, mas ignorei. Devo confessar que me havia habituado à calmaria da biblioteca. Quando dei por mim, ela estava comigo em seus braços! Fui aberto, registrado pelo tal aparelho e entregue às mãos descuidadas e compridas de uma menina. Esperei ser enfiado em uma mochila, mas ela me carregou embaixo do braço. Desceu as escadas e encontrou outras vozes, deviam ser colegas. Uma outra mão, pequena e de menino, me pegou. Ele deve ter me examinado, falou algumas coisas e devolveu o livro à menina das mãos feias. Julguei ter reconhecido alguma menção a minha primeira leitora, mas não dei importância. Voltaram à sala de aulas e me esqueceram em cima de uma classe.
Sol alto, vi a rua de novo. Senti o sol sobre minha capa, uma brisa entre as minhas páginas. As vozes conversavam, a menina que me tinha sob o braço parecia muito divertida pelas palavras do menino que me examinara e dos outros que a acompanhavam. Ria descontroladamente, se abaixava, perdia o fôlego e me derrubava. Não sabia como julga-la, seria uma tola? Uma ingênua? Talvez fosse meio maluca, talvez estivesse tentando ser aceita pelo grupo de adolescentes com o qual caminhava. Alguns minutos depois de deixarmos a escola, ela se despediu com muitas gargalhadas dos amigos. Correu, abriu uma porta e a escuridão caiu sobre mim. Subiu uma longa e íngreme escadaria, entrou em um apartamento e me deixou sobre um sofá.
E ali fiquei, esquecido, pelo resto do dia. A menina sentou-se ao meu lado, comeu doce, tomou leite, saiu, voltou, conversou com uma mulher que, pelo jeito, era sua mãe. À noite, depois do jantar, me tomou nos braços e levou-me a seu quarto. Resolveu ler-me, confesso que já perdia as esperanças. Tinha o rosto branco e normal, não era feia nem bonita. Olhos pretos, muito profundos, cabelos meio vermelhos da metade às pontas, castanhos das raízes a metade, aspecto seco. A menina me pareceu desleixada, mas quem se importa com aparência? Leu algumas páginas e se aborreceu. Largou-me sobre a cama e foi sentar-se ao computador. Passei um mês assim, a menina me pegava, lia um pouco e ia fazer outra coisa. Parecia se interessar mais pelo vôo de uma mosca do que pela trama desenrolada em minhas páginas. Acho que a pobre menina das unhas feias não pôde compreender-me, achou-me aborrecido porque tinha preguiça de buscar o dicionário. Então, não poderia ser diferente...
Depois desse mês, ela tomou-me nos braços finos e levou-me de volta à biblioteca escolar. Chovia nesse dia, a propósito do meu estado de espírito. Aborreci-me com essa leitora, mas não a desprezei. Talvez, um dia, ela possa tentar ler-me novamente e me compreenda. Tomara!
Voltei à minha estante com prazer. Não gostei muito da casa da leitora descuidada, era tudo muito úmido e levemente mofado. Tive medo de molhar-me em dias de chuva, quando ela me esquecia na janela aberta. Não foi o caso. Quando a bibliotecária me deixou em meu lugar na estante, comecei a pensar. Talvez meu destino fosse ser compreendido por poucos, quem sabe meu autor fosse alguém à frente de seu tempo? A menina dos olhos claros devia ser uma leitora à frente de seu tempo também... Queria ter sido comprado por ela, ou alguém como ela... Mas a vida em uma biblioteca é gratificante... Eu acho. Essa função, levar a literatura a esses estudantes alienados e analfabetos funcionais, é extremamente nobre. Mas esses estudantes não freqüentam a biblioteca... E, quando o fazem, é no desespero das provas finais... Eles nunca procurariam por mim. Mas ainda tinha esperanças, um dia teria um leitor como a menina dos olhos claros. Alguém que me compreendesse...
Mas fiquei um bom tempo esperando por algum leitor novo. Depois do primeiro mês na estante, me tornei menos exigente. Resolvi matar minhas esperanças, afinal, dizia um bigodudo, elas são o pior dos males. Qualquer um, por favor!!! Minha estória mal-elaborada e cheia de presunções estilísticas merece ser lida por alguém... Meu objetivo como membro de uma biblioteca escolar era tão nobre, mas jamais poderia ser alcançado sem os leitores... Não importava quão ignorantes, quão bitolados, quão obsessivos pela aparência eles fossem... Aceitaria homossexuais mal resolvidos, punks de boutique, esquizofrênicos, meninas com distúrbios alimentares, patricinhas à beira de um ataque de nervos! Contanto que completassem a leitura, conhecessem todos os personagens, acompanhassem o clímax e o desfecho. Sim, confesso, estava desesperado! Vi livros muito mais maçantes do que eu sendo retirados e devolvidos freneticamente, com listas de espera e bobagens do estilo. Acompanhei fenômenos editoriais fúteis, febres sugeridas pela mídia. Todos, todos inferiores a mim. Autores de um único sucesso, gente que não vai mudar o panorama da literatura mundial - como fez o meu autor -, eram requisitados como camisinhas no carnaval! Senti-me injustiçado e tive de esperar por meses...
Mas lembraram de mim... Já havia esquecido da sensação do toque humano na minha capa, como era ter minhas páginas reviradas por mãos e minhas palavras escrutinadas por olhos quando a conheci. A bibliotecária me buscou e entregou a uma menina muito peculiar. Ela tinha as unhas pintadas de verde, mãos bonitas. Colocou-me na mochila e a senti caminhar pela escola. Fazia frio. Perdido em palavras, nem percebi quando chegamos a sua casa. Logo ela abriu a mochila, me pegou, foi para a cozinha e preparou um café. Minutos depois, me abriu. Vi seu rosto grande, de formas inusitadas... Era quadrado, seus olhos eram bonitos, claros, lábios finos, nariz arredondado. Mas o impressionante eram os cabelos: um vermelho impossível, quase rosa, fulgurava na quase penumbra do quarto. Certamente a menina dos cabelos de cereja não nascera com tais melenas, mas a cor combinava perfeitamente com ela. E ela me leu! Enquanto bebia café, minhas páginas ficaram um pouquinho manchadas – mas nem me importei! -, me escrutinava. Essa menina me lembrou um pouco da minha primeira leitora, porém era menos... perfeita. Mas eu adorei os dias que passei em companhia da menina dos cabelos chocantes e, mais tarde descobri, voz ímpar. Ela me carregou por todos os lugares, eu conheci muitos amigos. Muito adorável, menina das unhas verdes, ela tocava o violino e namorava um guitarrista de longos caracóis. Ela me leu até o fim, talvez menos perdida nas minhas entrelinhas do que minha leitora ideal, mas prosseguiu entre minhas situações absurdas, meus personagens mal estruturados e minha trama descontrolada. E comeu sobre minhas páginas, senti-me parte de sua vida naquela breve semana. Ela me cativou, aquela menina violinista amável e dos cabelos falsos mais verossímeis dos quais já tive notícia.
Mas a felicidade de um bom leitor é efêmera... Logo fui devolvido à minha estante pela bibliotecária das mãos calejadas e unhas roxas. Mas tinha outra memória feliz para os dias solitários! E, de acordo com meus “cálculos” (livros de literatura não são muito confiáveis no que concerne aos números), seria muitos dias solitários. As férias chegavam... E eu não tinha qualquer esperança de ser retirado por alguém, nunca havia sido! Resignei-me à minha pequenez e comecei a me preparar para um inverno rigoroso e úmido.
Entretanto, qual não seria minha surpresa ao ser requisitado por um aluno no último dia de aulas! Sim, alguém quis me levar para casa e me decifrar com calma, durante um inverno inteiro. Que orgulho! Fui entregue a um jovem alto, corpulento, de mãos grandes. Enfiou-me em uma mochila estranha – um garfo fazia as vezes de chaveiro no zíper! – com pressa, correu escadas abaixo e saiu daquela biblioteca... Senti que era a minha última vez naquele prédio, se pudesse dar uma última olhadinha teria certeza de que sim. A mochila, por dentro, tinha toda sorte de bizarrices: velas de aniversário, lixas, uma pequena frigideira, talheres de plástico, um joão-bobo e, pasmem, um gato! Sim, havia dentro da mochila daquele jovem um felino doméstico! O animal dormitava enquanto o jovem parecia correr mais e mais. Não conseguia entender nada, estava perdido e com medo das unhas daquele animalzinho.
Quando o rapaz abriu a mochila, à noite, tomou-me nas mãos grandes de unhas descascadas e leu-me em poucas horas. Não soube como sentir-me, lisonjeado ou ludibriado: Como aquele jovem, por mais inteligente que seus olhos azuis bonitos e lábios imensos dissimulassem, poderia me entender em uma leitura dinâmica de três horas? Minutos depois de me largar sobre a mesinha de cabeceira, me pegou e, com uma lapiseira colorida escreveu coisas em algumas páginas minhas. Se eu fosse uma donzela... Talvez o tivesse deixado de ser naquele momento. Escreveram nas minhas páginas! Nada de acordo com minha trama escalafobética, imagino – o menino estilizou as palavras “Hot Shit” -, mas alguém me achou merecedor de palavras na borda do texto! Aquilo não parecia ser fácil em tais dias de novelinhas vespertinas adolescentes, entretanto eu o tive.
Vivi em tal estado de serena alegria e constante regozijo acadêmico durante dois dias. O idiossincrático rapaz pegou-me, enfiou-me na mochila bizarra e saiu. Naquela ocasião, o gato não estava lá – o que fazia a tal mochila bem mais acolhedora e ordinária – e os garfos estavam ensacados. Mal tive tempo de observar as outras coisas esquisitas que habitavam o interior daquela parada quando fui retirado de lá. O menino me entregava às mãos de outro rapaz, gesticulava e ria. Pareceu-me ansioso. O outro jovem me examinou com um olhar desprovido de emoção, como se procurasse defeitos em minhas páginas, capa e lombada. Nunca me havia sentido daquela forma, envergonhado e enojado. Fechou-me e, enquanto eu imaginava voltar às mãos descascadas do leitor afobado, largou-me sobre uma escrivaninha abarrotada de livros velhos e poeirentos, abriu uma gaveta e retirou dinheiro. Incrédulo, observei o menino escrutinador entregar a quantia – magra, por sinal – ao menino da mochila de gatos e apertar-lhe a mão suja. Não podia acreditar, tinha sido trocado por um nada de dinheiro e passaria o resto dos meus dias em uma pocilga! Ácaros nojentos comer-me-iam as páginas e a vida! Perderia a razão de ser naquele antro seboso e poeirento, cheio de mofo e umidade!
O menino sem emoções me levou a uma estante fedida e me pôs lá, entre dois livros velhos e ictéricos. Submeti-me ao cruel destino: ser barganhado em um sebo. Ao contrário da felicidade dos compradores que freqüentam tal tipo de estabelecimento, os livros odeiam essa situação. É vergonhoso, ser descartado ou trocado por outra publicação triste. Somos como cães abandonados por donos inconseqüentes: por que então nos compraram? Se vão se livrar de nós assim que outras prioridades se revelarem a eles? Pessoas sem coração vendem-nos em sebos, digo e repito. Não me importa se é ótimo encontrar uma obra em bom estado por um preço baixo, o leitor não foi deixado em uma estante úmida e poeirenta, freqüentada por ácaros e traças. Ponham-se nos nossos lugares! Sentia nojo de tudo, queria ser devorado pelas traças logo. Para não sofrer com o descaso desses mercenários, ser desdenhado pelo turbilhão de leitores de ocasião, somente interessados em adquirir as publicações pedidas pelas comissões organizadoras dos vestibulares.
Pude observar uma quantidade imensa de jovens espinhentos, meninas falsas e fedidas, professores interessados em edições antigas de livros banais, gente tomando chimarrão e fumando maconha. Uma menina gordinha tentava vender um livro mais caro do que o avarento jovem sem emoções queria pagar, então ela apelava a decotes reveladores de seus descomunais seios; uma idosa dama de sociedade tratava a pocilga como biblioteca, emprestando livros e tomando emprestados quando bem entendia. Sentia muita falta da minha velha estante na biblioteca escolar... Estava pronto a me deteriorar ali, pois nenhum olhar passageiro se fixava em mim, não havia quem me tomasse nas mãos e lesse minha contracapa. Sentia-me cada vez mais velho, mais mofado...
Até o dia de sol da minha existência! Ou ao menos, foi o que desejei. Em uma manhã preguiçosa de terça-feira, muito parecida àquelas de meu tempo de biblioteca escolar, o tempo frio e seco me agradou por ser pouco propício à formação de mofo nas minhas pobres páginas coladas. Já estava acostumado ao meu triste fado, seria esquecido... Minhas frases, apagadas e manchadas. Entretanto, tivera uma leitora sincera e apaixonada, que é mais do que muitos livros puderam ter um dia... A lembrança da menina de grandes olhos azuis me acalentava, desejava vê-la, ser resgatado daquele antro! Sonhos e sóis e olhos azuis, luas e peles alvas... Não pude crer quando fui retirado da prateleira poeirenta pelas lindas mãozinhas da minha leitora adorada! Seria possível? Ela viera me resgatar!
Olhou-me com os grandes olhos azuis, desta vez iluminados por um irreverente azul, cintilante – diferente dos olhos pintados de preto que vira na minha outra eternidade -, o rosto mais fino, a expressão mais serena. Perguntou ao usurário quanto queria por mim, pagou e levou-me nos braços. Absurda felicidade. Não posso encontrar palavras para defini-la.
Ela me releria! Com o mesmo entusiasmo, atenção e amor!
Revi seu apartamento, seu quarto, sua gata, seus livros. Ela me abriu e me dissecou, olhos cirúrgicos, lapiseira na mão me sublinhando as palavras, circulando expressões e me escrevendo nas margens... Não conseguia tomar consciência de seus julgamentos, porém... O que poderia ser ruim? Essa menina me amara anos atrás, o que teria mudado?
Leu-me em uma tarde, circulou-me, sublinhou-me, enfatizou-me, assinalou-me, etiquetou-me, transcreveu-me, absorveu-me, fechou-me.
Mais tarde, ela voltou com outros livros, igualmente assinalados e etiquetados, e abriu-me nas páginas assinaladas pelas etiquetas coloridas. Comparou-me, contestou-me, refutou-me.
Cerrou-me e se foi. Na solidão feliz, resolvi tomar consciência das anotações da menina.
Letras garrafais berravam, expunham meus maiores temores: INVEROSSÍMIL! PERSONAGENS PLANOS E INCONSISTENTES! FALHAS NA TRAMA! DIÁLOGOS IMPOSSÍVEIS! FOCO NARRATIVO FALHO! DESCRIÇÕES DEMASIADO PROLIXAS! TRAMA ESTAPAFÚRDIA! RELAÇÃO ESPAÇO-TEMPO ANTIQUADA! Rotulou-me como livro mais INCONSISTENTE e ENTEDIANTE que já tivera o DESPRAZER de ler. Escreveu uma observação na minha última página: Aprendi que os leitores se refinam com o passar dos livros... Opiniões mudam, penso ter evoluído muito desde a primeira vez em que li este traste... Cinco anos fazem diferença.
E ela me descartou, como uma roupa que não serve mais.
Foi então que aprendi: Não existe um mundo das idéias. A minha leitora ideal é um brioche defeituoso no meio dos brioches defeituosos.


Em homenagem ao Dia do Livro...

Desculpem se não é o meu melhor trabalho...