Com Agulhas

Eu gosto de escrever, de inventar uns diálogos loucos em jantares imaginários. Eu gosto de roupas, invento uns modelos e luto pra dar as luzes, partos difíceis esses, idéias. Gosto de comprar roupas e sapatos, futilidades não, estilo próprio; não sou uma fashion victim - a vida é demasiado curta pra rótulos e embalagens estragadas. Eu gosto de café, de canecas e de planos de casamento. Gosto de mim, contudo e com tudo.

Com Canetas

Eu tenho um dois à esquerda na idade, mas não acho que sou tão velha. Chamo minha gata de nenê e dou apelidos adoráveis ao meu namorado. Eu tricoto porque me acalma, produzindo, me agradam as cores das lãs. Eu amo porque não vivo no gris, amor vivo, amo pessoas e filmes e livros e bichos. Eu tenho o Heitor, já me basta de tanto amor. Eu adoro a língua francesa, adoro as idéias parisienses e as boinas e os cafés.

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Lay down your reddish head

Há duas semanas a campainha fez ding, depois fez dong. Então, depois das suas reclamações, uma caixa foi entregue nas mãos da mulher que ficou grávida três vezes e trouxe ao mundo a minha irmã, depois a mim, e depois o meu irmão. Dentro da caixa, novos travesseiros à família.

Mas eles não são apenas travesseiros, apesar de servirem para o descanso de nossas cabeças. Eles são símbolos da vida nova a vir. A primeira coisa nova para o apartamento novo, para a família nova. Família de três, uma mãe e dois filhos. A pessoa que seria o pai será deixada para trás, definitivamente. Ele não ganha um travesseiro, ele não ganha nada. Nem as minhas palavras, o cortei há meses.

Entretanto há dois travesseiros sobressalentes. Não, não são sobressalentes, eles já têm donos: minha irmã mais velha, quando ela vier visitar, e meu amado namorado, quando ele passar a noite em casa. Essa é minha família, além dos amigos próximos e da família do namorado querido. Afinal, eu não estou sozinha no mundo.

Durmo no meu travesseiro novo agora, acabei por acostumar-me ao seu cheiro de novo e à sua falta de lembranças. Ele é perfeito pra vida nova, e receberá suas lágrimas quando o tempo chegar... Ele faz minha cabeça descansar, me leva ao sono e às manhãs. Ele vê minha gata encher a cama de pêlos e conforta a minha raposa de pelúcia durante as tardes. Ele serve de apoio às minhas costas enquanto tricoto o blusão azul.

Mal posso esperar pra deixar para trás esse apartamento. As lembranças boas de camas quebradas durante RPG, de conversas com amigos queridos, de tardes com o Heitor e de noites ante as luzes da cidade ficarão comigo, mas o carma de traições e tristeza ficará longe.

Quero sentir o cheiro repugnante de tinta sobre as paredes, quero passar pelo stress da mudança, quero readaptar minhas gatas e quero receber meus amigos, velhos e novos, num lugar bem menor e bem menos cheio de histórias, mas muito mais feliz.

Travesseiro novo, vida nova.

Primeiro de Outubro

Hoje faltam duas semanas mais dez dias pra que as coisas se encaixem e o universo pare de flutuar ao meu redor.

Hoje os carboidratos voltam a ser restritos, os doces banidos e a ansiedade a ser vivida em cima de uma bicicleta ergométrica e de uma fitball.

Hoje eu continuo a tricotar as mangas do blusão do Heitor, e, quem diria, elas são o mais difícil até agora...

Hoje eu continuo a estudar matemática, física e química pra que, um dia, eu possa me tornar uma estilista – ou, ao menos, possa trabalhar com Moda.

Hoje eu volto a usar exfoliantes, hidratantes noturnos e diurnos, um esmalte diferente a cada semana, banhos de creme semanais nos cabelos, gel redutor na bóia que envolve a minha cintura e no excesso de coxas que me incomoda.

Hoje eu volto a cuidar de mim, porque é assim que eu gosto.

Cinco Anos

Hoje os dias faltantes são 8.

Hoje cinco anos se completam desde que o Victor e eu nos tornamos realmente próximos. Estivemos juntos durante pouco mais de 7 meses, mas como essa experiência mudou a minha vida! E como não posso imaginá-la sem as lembranças desse amigo insubstituível...

Victor Tortelli Albaini, um dos nomes mais imponentes que já li... Mal sei o que dizer hoje, só posso falar de crescimento. Aprendi, como já disse, a ser paciente, a respeitar mais a individualidade das pessoas, a tentar relevar e não sufocar. Aprendi que se ama mesmo de longe, sem grandes efusões e emoções operáticas.

Hoje, apesar de ter ficado muito brava e triste naquela época, me sinto muito grata por todos os nossos problemas, as nossas brigas. Porque eu amadureci com tudo aquilo, tivemos uma experiência meio surreal com toda aquela tensão.

Mudei, mudamos. Mas quais sõ as diferenças... Isso é tudo meio difícil de procurar. Me acho menos intransigente, menos preconceituosa - mas nisso o Heitor prevaleceu -, menos pretenciosa, menos barulhenta. Porque menos é mais, acredito.

Menos só não é mais em divertimentos, aprendizado, amizade, amor, lembranças boas. Falando em lembranças, Veguedoarm, tenho 2 pra ti. Das que eu guardo com mais carinho e que me trazem alegria sempre:

A primeira foi no dia em que nos reunimos na tua casa pra discutir sobre o grupo de teatro... Lembra? O dia da miojo... Mas o marcante, mesmo, foi a guerra de almofadas. Ainda escreverei sobre aquele momento, sobre aquelas pessoas que eu tanto amava. Um dos dias mais espontâneos que já vivi, certamente.

A segunda foi quando nós, já namorados, assistimos a "Panteras - Detonando" no cinema... Mais tarde tinha uma apresentação de dança da Bruna e ficamos no centro a tarde toda, um cara veio nos oferecer rosas e no fim estava quase as dando, lembra? Aquela é a memória do nosso relacionamento que eu mais gosto...

Enfim...

Agora eu consigo ver todos os meus erros e defeitos de então... E me amo mais agora, sendo um pouco menos leonina - acho. Sou menos insegura e consigo, finalmente, amar sem dominar. Sou mais sutil, ao menos...

Amo-te, Victor, um dos meus mais queridos amigos. Hoje e há 5 anos. Mas diferente, diferente a cada dia.