Lay down your reddish head
Há duas semanas a campainha fez ding, depois fez dong. Então, depois das suas reclamações, uma caixa foi entregue nas mãos da mulher que ficou grávida três vezes e trouxe ao mundo a minha irmã, depois a mim, e depois o meu irmão. Dentro da caixa, novos travesseiros à família.
Mas eles não são apenas travesseiros, apesar de servirem para o descanso de nossas cabeças. Eles são símbolos da vida nova a vir. A primeira coisa nova para o apartamento novo, para a família nova. Família de três, uma mãe e dois filhos. A pessoa que seria o pai será deixada para trás, definitivamente. Ele não ganha um travesseiro, ele não ganha nada. Nem as minhas palavras, o cortei há meses.
Entretanto há dois travesseiros sobressalentes. Não, não são sobressalentes, eles já têm donos: minha irmã mais velha, quando ela vier visitar, e meu amado namorado, quando ele passar a noite em casa. Essa é minha família, além dos amigos próximos e da família do namorado querido. Afinal, eu não estou sozinha no mundo.
Durmo no meu travesseiro novo agora, acabei por acostumar-me ao seu cheiro de novo e à sua falta de lembranças. Ele é perfeito pra vida nova, e receberá suas lágrimas quando o tempo chegar... Ele faz minha cabeça descansar, me leva ao sono e às manhãs. Ele vê minha gata encher a cama de pêlos e conforta a minha raposa de pelúcia durante as tardes. Ele serve de apoio às minhas costas enquanto tricoto o blusão azul.
Mal posso esperar pra deixar para trás esse apartamento. As lembranças boas de camas quebradas durante RPG, de conversas com amigos queridos, de tardes com o Heitor e de noites ante as luzes da cidade ficarão comigo, mas o carma de traições e tristeza ficará longe.
Quero sentir o cheiro repugnante de tinta sobre as paredes, quero passar pelo stress da mudança, quero readaptar minhas gatas e quero receber meus amigos, velhos e novos, num lugar bem menor e bem menos cheio de histórias, mas muito mais feliz.
Travesseiro novo, vida nova.
